30 de jan de 2012

A flor de lótus da lei II



“Tudo o que é necessário está oculto na consciência humana. O ser humano não precisa olhar para os céus, não precisa pedir por nenhuma graça vinda de algum lugar. Ele precisa se tornar uma luz para si mesmo”. (Buda)

E a luz existe, ela é a própria essência de sua vida. Aconteceu apenas uma coisa, você a esqueceu; não que você a tenha perdido, mas apenas esquecido.
A vida é um esquecimento e uma lembrança. E isso é tudo, e essa é toda a história. A pessoa adormece e sonha mil e uma coisas, e pela manhã acorda e todos os sonhos se foram.
Assim é a vida. Nós adormecemos – adormecemos em relação a nosso ser interior. Nós nos esquecemos de quem somos... Daí o mundo, o samsara. Samsara significa “o mundo de dez mil coisas”.
E ficamos correndo de uma coisa para outra – em busca de um eu. Em razão de termos perdido contato com nosso eu, estamos continuamente procurando por ele.
Se você olhar fundo na agonia do ser humano, esta é a agonia. Ele se esqueceu de quem é ele, e está procurando e perguntando para todo mundo: “Quem sou eu?” Ele pode não estar tão consciente...
Perceba... é isso que você pede quando se apaixona. Você está pedindo a seu amado para lhe dizer quem é você.
Por que as pessoas se sentem tão bem quando estão apaixonadas? Porque começa a surgir alguma identidade. A mulher que você ama diz: “Você é bonito, inteligente, único”. Ela está lhe dando um eu.
Quando você diz a mulher: “Você é linda, nunca encontrei uma mulher tão linda; não posso viver sem você, você é a minha vida, a minha alegria, a minha própria existência”, está dando uma identidade à mulher.
Ela está procurando por isso; ela não sabe quem ela é. Portanto, você está criando um eu. Ela está criando um eu para você e você está criando um eu para ela.
É por isso que as pessoas se sentem tão à vontade quando estão apaixonadas. Quando o amor desaparece, é quebrado, despedaçado, elas ficam despedaçadas. Por que você fica novamente despedaçado? Porque sua identidade novamente é perdida, novamente você não sabe quem você é.
Por que você procura dinheiro e riqueza? Apenas para ter alguma identidade, de tal modo que você saiba quem é você e as pessoas possam dizer quem é você. Por que você procura por poder, por prestígio? Pela mesma razão.
O ser humano está numa constante busca do eu, está numa constante crise de identidade. Como no passado as coisas estavam mais estabelecidas, as pessoas ficavam mais à vontade. Agora as coisas estão mudando tão depressa que, repetidamente, sua identidade é despedaçada.
Pense... Antes, uma vez casado, casado sempre. Você não ficava procurando de novo por uma mulher ou por um homem; era algo para a vida toda, algo liquidado.
Lentamente, uma certa idéia ficava fixa: que você era o marido, o pai das crianças, isso e aquilo. Mas hoje em dia isso é difícil.
De vez em quando, o homem troca de mulher, e a mulher troca de homem. Repetidamente, a pessoa terá de procurar pela identidade.
No passado, as pessoas costumavam fazer o mesmo trabalho por toda a vida; isso era tradicional. Seu avô era carpinteiro, seu pai era carpinteiro, você é carpinteiro, seus filhos serão carpinteiros – nesse contexto você sabe quem é.
Agora é impossível saber. As pessoas ficam mudando de emprego; as coisas estão mudando tão rápido...
No passado, você sabia a que você pertencia. Você era indiano, cristão, hindu, chinês, budista. Agora você não sabe mais.
O mundo se aproximou muito, e as fronteiras se tornaram falsas.
Quem é você? Esse é um dos problemas mais fundamentais. O ser humano moderno está muito confuso, praticamente paralisado.
E Buda diz: “Não ajudará se você criar uma falsa identidade”.
Você pode viver com ela toda a sua vida, mesmo assim não saberá quem você é. E a única maneira de saber disso é penetrar em você mesmo, com grande recordação, atenção, percepção.
Ao perguntar fora, tudo o que você obtém é falso. Sua mulher, seu homem, seu país, sua religião, sua igreja – eles lhe darão certo tipo de identidade, criarão um falso eu, mas isso não é real, e somente o medíocre e o estúpido pode ser enganados por ele.
Mais cedo ou mais tarde, a pessoa inteligente precisará perceber que essas identidades são exteriores: Na verdade, ser um marido, um pai, uma mãe, um cristão ou um hindu nada diz a seu respeito. Você ainda está na escuridão.
Estes rótulos podem ser de alguma ajuda no mundo exterior, mas seu cartão de identidade não é você, seu nome não é você, mesmo sua fotografia não é você, pois você continua mudando, e a foto simplesmente representa um momento em sua vida, um gesto, mas não representa você.
Do lado de fora não há como ver quem é você. Há somente uma maneira, e esta é ficar alerta, desperto e fazer grande esforço interior, de tal modo que você não fique dormindo ali.
Somente então você terá um vislumbre da pessoa real – de quem você realmente é.

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