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4 de jan. de 2017

Tudo mentiras e absurdos II


Relaxe seus olhos... Observe sua respiração...
Mova sua atenção pelo corpo – parte por parte, pedaço por pedaço -, e percebendo alguma tensão, respire nesses pontos e simplesmente solte tudo - relaxe.

O Zen é pura essência, apenas fragrância.
Observando sua respiração mova-se da mente para a não mente... Mova-se das palavras para o silêncio...
A pessoa medíocre vive através de objetivos. Somente uma pessoa absolutamente inteligente pode viver sem objetivos; somente a inteligência pode viver aqui e agora, pode viver no momento presente, sem trazer nada de fora.

Visualize uma linda flor... Sinta sua fragrância...
Uma pessoa de inteligência absoluta se torna uma flor. As flores vivem no momento presente, elas não pensam no dia de amanhã - elas não têm passado nem futuro. E devido a não ter passado nem futuro, também não se pode dizer que ela vive no presente, pois o presente é apenas uma estação intermediária entre o movimento que acontece do passado para o futuro. O presente é apenas uma estação no caminho. Quando o passado e o futuro desaparecem, o presente também desaparece. O que sobra é uma ausência de tempo. O agora é um momento de ausência de tempo, ele é eternidade – e Buda chama esse momento de meditação.

Buda tem um alcance bem mais amplo, ele vai ir até o mais distante céu e deseja que você chegue àquelas alturas e profundidades do ser. E elas estão todas disponíveis agora! Então, lembre-se continuamente: ele não está lhe dando um objetivo em algum lugar no futuro – ele está tornando você simplesmente consciente de que tudo o que você precisa está disponível agora. Nada mais é necessário, nada mais nunca acontecerá ou poderá acontecer. Se você deseja viver, tudo está ocorrendo agora – torne-se parte disso, dissolva-se nisto.

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em janeiro de 2017

3 de jan. de 2017

Tudo mentiras e absurdos I


Relaxe seus olhos... Observe sua respiração...
Mova sua atenção pelo corpo – parte por parte, pedaço por pedaço -, e percebendo alguma tensão, respire nesses pontos e simplesmente solte tudo - relaxe.

Descobrir sua verdadeira natureza, entrar em contato com sua essência, descobrir a verdade, não é uma mercadoria desejada pelas pessoas. Elas acham que já a conhecem e, mesmo se acharem que não a conhecem, elas pensam: “Quem precisa delas”? Suas necessidades são por mais magia, ilusões e sonhos em suas vidas.
Descobrir a própria essência não interessa as pessoas. No momento em que uma pessoa se torna interessada pela verdade, ela não é mais parte da massa – ela se torna um indivíduo. Do contrário, ela permanece parte da multidão e não existe realmente. Mas a busca é árdua, e ela necessita de coragem, de inteligência e de consciência.

Em uma passagem, Buda afirma não haver objetivo na vida – nada a ser alcançado externamente – deixe isso penetrar em seu coração. Não há objetivo na vida.
O objetivo não existe, ele é imaginário, é sua criação. Você cria o objetivo, então você cria a virtude e o pecado e, então, a humanidade é dividida em santos e pecadores. Aqueles que estão se movendo em direção aos objetivos são virtuosos e aqueles que não estão se movendo em direção aos objetivos são pecadores. Abandone o objetivo, e os santos, os pecadores, as divisões, o mais elevado, o mais baixo desaparecerão e não haverá céu ou inferno.
Perceba a importância disso! A ideia do objetivo cria o céu e o inferno. Aqueles que estão se movendo em direção ao objetivo, as pessoas obedientes e boas, serão recompensados com o céu. E aqueles que não estão indo em direção ao objetivo, os pecadores, as pessoas más, serão punidos com o inferno.
Perceba... Primeiro você cria o objetivo e então tudo segue... então são criados o céu e o inferno, os santos e pecadores, o medo de perder o objetivo e o ego de atingir o objetivo. Você criou toda confusão, toda neurose da mente.
Buda vem e ataca a própria raiz da confusão: ele diz que não há objetivo. Apenas esta simples afirmação pode se tornar uma força libertadora: não há objetivo. Então a pessoa não está indo a lugar algum e está sempre aqui; ela nunca está indo a lugar algum, não há lugar para se ir e ninguém para ir. Tudo sempre esteve aqui e sempre esteve disponível.
O objetivo significa futuro; portanto você começará a ficar mais interessado no futuro e a se esquecer do presente. O objetivo cria tensão, angústia, medo – “vou consegui-lo ou não?” -, cria competição, inveja, conflito e hierarquia. Aqueles que estão se aproximando do objetivo são superiores e os que não estão são inferiores.
O entendimento de Buda é completamente diferente. Ele diz: “A vida em si mesma é seu próprio sentido”. Você não precisa criar qualquer outro sentido, e todos os sentidos criados se tornarão apenas fontes de ansiedade. A rosa que desabrocha no jardim não está desabrochando por algo mais! E o rio que flui para o oceano não está fluindo por algo mais - o fluxo é a alegria, o florescimento é a celebração.
Quando você fica muito orientado pelo futuro, começa a se esquecer do presente, o qual é a única realidade.
Os pássaros cantando, este momento!... Este aqui e agora... Tudo isso é esquecido quando você começa a pensar em termos de alcançar algo. Quando surge a mente conquistadora, você perde o contato com o paraíso em que você está.
Esta é uma das abordagens mais libertadoras: ela libera você agora mesmo! Esqueça-se de tudo sobre pecado e santidade; ambos são estúpidos, ambos destruíram todas as alegrias da humanidade. O pecador está se sentindo culpado, daí sua alegria ser perdida. Como você pode desfrutar da vida se está continuamente se sentindo culpado; como pode desfrutar da vida, se você está indo continuamente à igreja para confessar que fez isso e aquilo de errado¿ E errado, errado, errado... Toda sua vida parece ter sido feita de pecados. Como você pode viver com alegria?
Torna-se impossível ter deleite na vida. Você fica pesado e carregado. A culpa se aloja em seu peito como uma rocha e o esmaga; ela não permite que você dance. Como a culpa pode dançar, cantar, amar e viver?
E a pessoa que acha que é santa também não pode viver e se deleitar, pois ela está com medo: se ele tiver deleite, poderá perder a sua santidade; se ela rir, poderá cair de sua posição. A risada é mundana e a alegria é comum – o santo precisa ser sério, e ter uma face triste. Ele não pode segurar a mão de alguém, pois pode se apaixonar e surgir o apego. Ele não pode relaxar, pois, se o fizer, seus desejos reprimidos começarão a emergir. Um santo não pode relaxar; e se não pode relaxar como pode desfrutar e celebrar?
O pecador perde devido a culpa e o santo perde devido ao ego – ambos são perdedores. Objetivos são criadores de infelicidade.
A mente conquistadora é a fonte original de todas as enfermidades, de todas as doenças.

Buda diz: “Não há lugar para se ir – relaxe”.
No fundo, você é apenas um bambu oco, e a existência flui através de você por nada além do puro deleite de fluir.
Observe as rosas, a grama, os rios e as montanhas, viva com a natureza, e lentamente você perceberá que nada está indo a lugar algum. Tudo está se movendo, mas não para alguma direção e objetivos.
Dissolva as metas, os objetivos.  Nesse silêncio, a vida se torna a única escritura e se torna tudo que existe.
Viva e saiba, viva e sinta, viva e seja.

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em janeiro de 2017

10 de dez. de 2016

Vindo da estrada esburacada VII


O mestre Zen diz:
Todos os pecados cometidos
Nos Três mundos
Se dissolverão e desaparecerão
Comigo

Os Três mundos são os mundos do passado, do presente e do futuro – o mundo do tempo. Esse sutra é de um significado revolucionário imenso.
No momento em que você souber que você não é, então tudo o que você fez no passado, está fazendo no presente ou fará no futuro também desaparecerá. Quando aquele que faz desaparece, os feitos também desaparecem.
No Oriente, as pessoas se preocupam muito com carmas e ações. Elas ficam com muito medo, pois têm de pagar e sofrer por todas as coisas ruins que fizeram no passado.
E o mestre Ikkyu diz: “Não tenha medo, pois você não é; portanto, você não fez coisa alguma!”
Assim, a única coisa é penetrar fundo em você mesmo e perceber o seu nada. Você não precisa fazer coisas boas para contrabalançar as coisas más que fez. Você não precisa se esforçar em fazer boas ações, pois faça você o bem ou o mal, você permanece na ilusão de um executante. Perceba a diferença!
Normalmente, as religiões ensinam a ser moral, fazer o bem e evitar os pecados. Lembre-se daqueles dez mandamentos – eles compõem a religião ordinária: não faça isso, faça aquilo. A religião extraordinária diz: desapareça como o autor, não se incomode a respeito de fazer o bem ou o mal. E quem sabe o que é bom e o que é mau?
Na verdade, nada é bom e nada é mau, pois a existência é uma – como pode haver duas? Tudo é um. O bom transforma-se em mau, o mau transforma-se em bom, e a gente nunca sabe o que é o quê. As coisas continuamente estão se transformando umas nas outras. Você pode observar...
Você estava fazendo algo bom e resultou em algo mau. Uma mãe tenta proteger seu filho de todas as coisas ruins do mundo e, justamente porque ela o está protegendo, ela o está forçando a entrar nelas, pois ela está criando a tentação.
Lembre-se da velha história: Deus disse a Adão para não comer desta árvore, e criou a tentação. Ele deve ter sido um bom pai, e destruiu o filho. Ao dizer “Não coma da Árvore do Conhecimento”, ele criou a tentação e o desejo, o desejo irresistível de comer daquela árvore.
Ora, ele queria fazer o bem, mas o que aconteceu? O pecado original surgiu.
Todas as pessoas que ficam fazendo coisas boas provam ser muito nocivas; os benfeitores são as pessoas mais nocivas do mundo, e o mundo sofreu muito com elas; suas intenções são boas, mas suas compreensões são nulas. E apenas boa intenção não serve pra nada.
Aqueles que compreendem dizem que não se trata de uma questão de bom e mau, mas de uma questão de desaparecimento do autor. Ou podemos dizer desta maneira: permanecer como autor é mau; desaparecer como autor é bom. Não ser é virtude; ser é pecado.
Este é o entendimento de Buda. Todos os nossos atos são apenas sonhos, e quando a pessoa se torna desperta ela simplesmente começa a rir: todo o mal e todo bem foram apenas sonhos.

Escute esta história:
Havia certa vez um trabalhador que detestava café; contudo, sua esposa não sabia disso, pois ele nunca dissera. Ela adorava café e ficava muito feliz ao colocar uma garrafa térmica de café na sua trouxa de almoço, todas as manhãs.
Ele sempre levava a trouxa e a garrafa térmica para o trabalho, mas, sendo um homem econômico, à noite trazia a garrafa cheia de volta pra casa. Então, para economizar e porque sua esposa adorava café tanto quanto ele o detestava, ele despejava o café no bule quando ela não estava vendo. E ele recusava o café da noite com a desculpa de que atrapalhava seu sono.
Numa noite, a esposa sonhou que seu marido lhe era infiel e, na noite seguinte, ela teve o mesmo sonho. Isso a deixou furiosa, mas ela não disse nada. Cerca de uma semana depois, o sonho ocorreu pela terceira vez, causando-lhe muito ciúme e angústia.
“É verdade”, pensou ela. “Deve ser verdade, o verme é infiel a mim”! Assim ela decidiu se vingar, e o fez ao colocar todas as manhãs uma pitada de arsênico na garrafa térmica dele, até que ela morreu.
No julgamento do marido, o juiz disse: “É sempre assim, aqueles que acreditam no sonho assassinam a si mesmos”.

E o maior dos sonhos é “Eu sou” – e este se tornou nosso suicídio. A ideia “Eu sou” provou ser muito suicida. E se você desaparecer como um eu (ego), se você cometer este suicídio espiritual, pela primeira vez você começará a viver, nascerá para a vida eterna e conhecerá algo que não é temporal.
E então, nessa consciência desperta, não há nada bom e nada mau. Então a pessoa come quando tem fome, dorme quando está cansada, responde quando uma questão é levantada. A pessoa não tem ideia de como viver e vive sem mente. A pessoa vive com nada dentro de si. Viver como nada é nirvana; é dissolver-se na existência – na eternidade.

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em dezembro de 2016

9 de dez. de 2016

Vindo da estrada esburacada III


Observe sua respiração...
Inspiração e expiração... Compreenda a lei fundamental da natureza / mudança, mudança, mudança... Tudo muda tão rápido; é tudo tão momentâneo...

Da mesma forma, nossa vida humana é tão momentânea... Não faz sentido se perturbar com ela. Alguém o insultou e você faz grande estardalhaço a respeito disso – e isso é tão momentâneo! Não vai durar e tudo vai ser esquecido. Ou alguém se torna bem sucedido e enlouquece; ou alguém acumula muita riqueza e tira os pés do chão e passa a voar.

Antigamente havia uma bela tradição em Roma. Sempre que um conquistador romano voltava – ele havia conquistado novos países, fora um grande soldado e voltava com grandes sucessos e vitórias -, então, quando ele voltava, as massas, a multidão, o povão, todos gritavam em alegria. Ele era saudado como um deus. A tradição era que um serviçal caminhava atrás dele e continuamente o lembrava: “Não seja enganado pelas pessoas. Senhor, não seja enganado pelas pessoas! Não seja enganado pelos tolos; caso contrário, o senhor enlouquecerá”. Um serviçal, um escravo, tinha de repetir isso continuamente às costas do conquistador, de tal modo que ele pudesse se lembrar. Senão é muito fácil: quando o sucesso vem, a pessoa enlouquece.

Não seja enganado pelo sucesso. Ele é momentâneo, é apenas uma bolha, uma bolha de sabão. Não deixe que o sucesso lhe suba à cabeça.
Porque o sucesso sobe à cabeça – e o mesmo acontece com o fracasso; ele machuca. E tudo é momentâneo, este descanso é momentâneo. Pense nas infinidades... Antes do seu nascimento havia infinidade, o tempo sem começo o procedeu; e após a sua morte o tempo sem fim vai sucedê-lo. E entre essas duas infinidades o que você é? O que é a sua vida? Uma bolha de sabão, apenas um sonho de um momento.
Não permita que isso o afete. Se a pessoa puder permanecer consciente e não for afetada pelo sucesso ou pelo fracasso, pelo elogio ou pelo insulto, pelos inimigos ou pelos amigos, então ela está retornando à fonte original. A pessoa se torna uma testemunha.
Não fique perturbado com isso. Pondere e contemple a respeito disso – este é um grande segredo, um dos grandes segredos dos Budas. Simplesmente fique alerta, pois tudo é trivial, momentâneo e um sonho de verão. Ele está partindo, já está partindo, e você não pode se segurar nele. Não há necessidade de se apegar a ele e nem de empurrá-lo. Ele vai por si mesmo, bom ou mau, não importa o que ele seja, ele está partindo. Tudo está partindo; o rio está fluindo e você permanece sereno e desapegado, apenas uma testemunha. Isso é meditação.

O mestre diz:
Meu eu de há muito tempo,
Em natureza não existente;
Nenhum lugar para ir quando morto,
Nada absolutamente.

Novamente, tente contemplar cada palavra: Meu eu de há muito tempo... Antes do nascimento, éramos não existentes, e assim, de novo, seremos após a morte. Nenhum eu existia e nenhum eu existirá após a morte.
Buda insiste muito nesta visão do não-eu, pois todos os nossos desejos estão à volta do conceito do eu: eu sou. Mas, perceba... Se eu sou, então mil e um desejos surgirão... Se eu não sou, então como desejos podem surgir a partir do nada?
Esta é uma das maiores contribuições de Buda ao mundo.
Esta é uma das meditações mais fundamentais. Se isso pode se assentar em você, que “eu não sou”, então de repente o mundo desaparece. Saber que “eu não sou” é saber que não há necessidade de fazer coisa alguma, de ser coisa alguma, de possuir coisa alguma, de atingir coisa alguma. Quando não existe o eu a ambição é relevante.

Buda diz que a meditação básica é perceber que “eu não era e eu não serei”, então como posso estar no meio de dois nadas? Se eu não era antes e não serei novamente depois da morte, então como posso ser agora?

Meu eu de há muito tempo...

Antes do nascimento nós éramos não existentes, não eu, e deveremos ser assim novamente após a morte. Portanto, estamos nessa condição no momento presente, sem nada no mundo que possamos chamar de nosso. Isso atinge o âmago do problema.
Não se despoje de coisas – despoje-se do seu eu, e então as coisas são despojadas automaticamente.
Não importa o que você possui, mas se você possui, então você permanece na estrada esburacada – no mundo dos desejos.
Buda corta a raiz. Ele diz que não há ninguém para possuir. Perceba a beleza e a imensa implicação disso; não abandone as posses, abandone o possuidor.
E então você pode viver no mundo sem problemas, sem estresse, sem ansiedade, sem tensão...

Meu eu de há muito tempo
Em natureza não existente...

Buda trabalhou continuamente por seis anos em busca do eu. Você já ouviu o famoso ensinamento de todos os tempos: “Conheça a si mesmo”! Buda trabalhou duro; por seis anos ele tentou penetrar a realidade do eu, mas ele não pôde encontra-lo. Conheça a si mesmo, e no dia em que você se conhecer saberá que não existe eu.
E compreendendo isso a tensão se dissolve... A ansiedade se dissolve... E você, como ego, se dissolve...

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em dezembro de 2016

10 de nov. de 2016

Vindo da estrada esburacada II


Começamos com um “doka”

Um descanso no caminho de volta
Da Estrada Esburacada
Para a Estrada Nunca-Esburacada;
Se chover, deixe que chova;
Se ventar, deixe que vente.

Cada palavra deve ser penetrada com simpatia... “A Estrada Esburacada” significa este mundo, o mundo dos desejos. Através dos desejos estamos perdendo nossa energia, desperdiçando nosso ser e desaparecendo pelo ralo.
Esse mundo é a Estrada Esburacada, e o ser humano simplesmente se desperdiça aqui. Nada é ganho a partir dela, nunca. Na verdade as pessoas vêm como imperadores e morrem como mendigos. Esta é uma estrada esburacada! Toda criança nasce como imperador, e logo o reino, a pureza e a inocência são perdidos. Cada criança é Adão no Jardim do Éden e cada uma precisa ser expulsa do jardim; e ela começa a penetrar no mundo dos desejos.
Existem dez mil desejos, os quais não podem ser realizados e satisfeitos. Eles trazem somente frustrações e mais frustrações, e cada desejo é uma nova armadilha de frustração. Você novamente tem esperança e acaba sendo pego, e cada desejo traz somente uma enorme frustração.
Porém, no momento em que ele vem, você começa a desejar de novo; você se move de um desejo a outro, e pode continuar se movendo por milhões de vidas. Em realidade, é assim que temos nos movido.

O mestre Zen Ikkyu chama isso de Estrada Esburacada. E a Estrada Nunca Esburacada, o mundo antes de nós termos nascido ou o mundo quando nós não existirmos mais.

No Zen, esta é uma das meditações mais básicas: procurar a face que tínhamos antes de nascermos ou procurar a face que teremos quando estivermos mortos. Apenas pensar sobre ela traz grandes realizações; apenas por meditar continuamente a respeito dela e a pessoa começa a sentir algo sem feição. Esta é a nossa face original; o estado de não feição. Você não tinha face, corpo, mente, nome ou forma antes de nascer – nenhum namarupa, nem nome nem forma. Você era, mas não estava identificado com nada.

O objetivo de todas as meditações é perceber isso novamente, dentre todo esse barulho da Estrada Esburacada, dentre todas essas pessoas que estão apenas correndo atrás de desejos, perseguindo um desejo e então um outro e um outro... Reconhecer e perceber a face original quando você não era um corpo nem uma mente, mas somente uma consciência pura, uma testemunha. Isto é chamado de Estrada Nunca Esburacada. Se você puder permanecer nesse estado, suas energias de vida não se dispersarão.
E o caminho de volta é retornar a esta fonte, a esta face original. Todas as religiões são o caminho de volta. Religião significa uma virada de 180 graus, uma meia volta, uma meia volta completa. Estamos correndo para longe da fonte original, estamos correndo de nós mesmos, e precisamos retornar, precisamos chegar à nossa fonte original, pois somente ali há paz, contentamento, bem aventurança e preenchimento.
A fonte é o objetivo – eles nunca estão separados. Somente a fonte pode ser o objetivo! Quando a pessoa volta para a sua fonte original, ela atinge tudo que a vida pode dar, tudo que a vida pretende dar.
A vida é perder o paraíso e a religião é recuperá-lo. Atirar-se no mundo dos desejos é Adão caindo da graça; retornar é Cristo. Eles são as mesmas pessoas! Adão e Cristo não são duas pessoas separadas, mas a mesma pessoa, somente suas direções mudaram. Adão está na Estrada Esburacada, afastando-se da fonte, indo cada vez mais longe da fonte, e Cristo está regressando, ele deu a volta.
A palavra cristã “conversão” significa regressar; Conversão não significa um Hindu se tornar cristão ou um muçulmano se tornar cristão. Conversão significa Adão se tornar cristo. Isto nada tem a ver com o cristianismo, mas algo com o próprio estado crístico. Porque ao se tornar cristão, você não se converteu; e nada mudou. Você era hindu e estava se atirando no mundo dos desejos, então você se torna cristão e se atira no mesmo mundo – mudou em você apenas o rótulo. Agora você não é mais chamado de hindu e sim de cristão.
Conversão significa uma virada de cento e oitenta graus – Adão regressando, o caminho de volta.
Os Budistas têm uma palavra ainda mais bonita para isso, paravritti – que significa exatamente uma virada de cento e oitenta graus. Menos que isso não serve. Se você errar, mesmo que por um único grau, você ainda estará se atirando no mundo dos desejos.
E o “descanso” significa nossa curta vida humana, tão curta que chuva ou vento e desgosto e paixão são de consequências e significados pequenos.

A vida pode ser encontrada somente no momento presente, mas nossas mentes raramente moram no momento presente. Ao invés disso, nós nos voltamos ao passado ou ansiamos pelo futuro.
Pensamos ser nós mesmos, mas, na verdade, quase nunca estamos em contato real conosco.
Nossas mentes estão muito ocupadas remoendo as memórias de ontem ou os sonhos acerca do amanhã. O único modo de se estar em contato com a vida é retornar ao momento presente.

E uma vez que você sabe como retornar para o presente, você se tornará desperto e, naquele instante, encontrará o seu verdadeiro ser.

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em novembro de 2016

9 de nov. de 2016

Vindo da estrada esburacada I



Guiado pela respiração, penetre a concha do seu corpo físico e procure deixar sua mente pra trás. A razão precisa ser perdida e abandonada.
Somente indo além da mente a pessoa começa a entender aquilo que é.
Lentamente nosso mundo se tornou rudimentar. A linguagem mais profunda – a poesia – perdeu seu significado para nós. Mas a poesia tem uma maneira indireta de insinuar coisas; ela é feminina e a prosa é masculina. A própria estrutura da prosa é lógica e a poesia é basicamente ilógica. A prosa tem de ser precisa e a poesia tem de ser vaga – esta é a sua beleza, a sua qualidade. A prosa é necessária no mundo do dia a dia, no mercado, mas, sempre que algo do coração precisa ser dito, a prosa constantemente se revela inadequada – a pessoa precisa recorrer a poesia.
Sendo assim, a prosa se tornou muito predominante em razão de ser utilitária, e a poesia logo desapareceu por não ter utilidade. A poesia é necessária somente quando se está amando, quando se fala de amor, de morte, de oração, da verdade, de Deus – mas essas não são comodidades, não são vendidas no mercado nem compradas.
Lentamente o mundo se tornou linear, e a outra linguagem, a mais profunda, perdeu seu significado para nós. E devido ao desaparecimento da poesia, o ser humano se empobreceu muito – pois todas as riquezas são do coração. A mente é muito pobre, é uma mendiga; ela vive através do trivial, do comum. O coração é uma abertura para as profundezas da vida e da existência, para os mistérios do cosmos.
E a mente moderna foi treinada pela ciência, daí a religião ter ficado praticamente fora de moda e se tornado coisa do passado. Parece não haver futuro para a religião.
Freud declarou não haver futuro para a ilusão chamada religião. Mas, se não houver futuro para ela, também não haverá futuro para o ser humano. A ciência vai destruir a humanidade, pois a humanidade só pode viver somente através do poético, do metafórico. A vida adquire significado unicamente por meio do coração do coração, e o ser humano não pode viver só pela mente, pelo cálculo e pela matemática. A matemática pode servir, porém não pode ser a mestra; a cabeça pode somente ser uma serva, e como serva ela é muito útil, mas é perigosa e fatal quando pretende se tornar a mestra.
A linguagem da ciência objetiva vive no mundo dos fatos; as coisas são como são. Um é um, dois equivale a dois e morto é morto. Este é o mundo dos fatos – monótono e morto, estagnado.
É impossível viver apenas no mundo dos fatos, pois assim, você nunca será capaz de relaxar. Como a pessoa pode viver nos fatos? Ao viver neles a vida começa a ficar sem sentido.

É bom termos esta linguagem, a dos fatos, da prosa. É verdade que nosso mundo não pode ficar sem ela; ela é necessária, mas não pode ser o objetivo da vida. Nunca usamos a prosa quando desejamos abrir nossos corações e dizer o que realmente está dentro de nós, oculto...

Certamente é pobre uma pessoa que não sentiu a inadequação da linguagem comum. Isso simplesmente revela que ela nunca sentiu amor, nunca teve um momento meditativo e não conheceu o êxtase. Seu coração não palpita mais... E isto significa que ela não experimentou nenhum mistério da vida e que não vive realmente. Do contrário, como evitar os mistérios? Isso significa que ela nunca viu a lua cheia na noite, nunca viu a beleza e o esplendor dos olhos humanos, nunca gargalhou, nunca chorou e não sabe o que significam as lágrimas. Isso revela que essa pessoa é um robô, não um ser humano, ela é apenas uma máquina.
Um ser humano é um ser humano somente à medida que vive em uma necessidade suprema – a necessidade de celebrar, de manter um diálogo com as estrelas, com o oceano... A necessidade de dar as mãos, de se apaixonar, de dançar e cantar. A linguagem comum não pode preencher esta necessidade suprema.
Se você abandonou o mundo vago do coração, dos sentimentos, das sensações, das emoções e do êxtase, então naturalmente você está fechado para Deus. Estar vivo no que se refere a Deus é penetrar a poesia.
Você já viu Khajuraho, Konarak e outros belos templos da Índia? As velhas escrituras afirmam que na entrada de cada templo deveria haver uma estátua ou uma escultura de amantes. Essas escrituras mencionam esse fato para os arquitetos dos templos – que isso é uma necessidade. Na entrada de cada templo, na porta, deve haver pelo menos um casal em maithuna – em orgasmo, em profundo amor, em grande êxtase.
Por que na porta? Porque a menos que você conheça o amor, não pode conhecer a ponte entre o ser humano e Deus. E a porta é um símbolo; ela é a soleira entre o mundo da mente e o da não mente. É o amor que faz a ponte entre o mundo da mente e o da não mente, e é somente através do amor que conhecemos os mistérios orgásticos da vida.
Isso é muito significativo. As pessoas têm evitado isso; elas são muito moralistas e estúpidas, mas a prescrição antiga é de grande significado: somente o amor pode ser a entrada, pois só ele tornará viva a sua poesia.
E a poesia é a ponte de arco íris entre o ser humano e Deus, entre o ser humano como mente e Deus como mistério; entre o mundo da mente e o da não mente.
Esta é a abertura, a porta, a entrada.
Então, silenciosamente, procure sair da superfície, onde encontra-se a sua mente, e mova sua atenção em plena quietude para dentro do seu coração....

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em novembro de 2016

26 de out. de 2016

Deseje fervorosamente a paz


Nosso ensinamento de hoje diz: Deseje fervorosamente a paz.

Por alguns instantes, observe sua mente... Você realmente deseja paz? Ninguém deseja a paz. Você vive falando de paz e se iludindo dizendo que deseja, mas ninguém a deseja – porque quando a paz é desejada, ela acontece, e ela não aconteceu pra você.
Ninguém deseja a paz. E mesmo que você diga que deseja a paz, você não a deseja, porque uma das leis supremas afirma: se você deseja a paz, ela acontece. Então, onde está o erro?

Uma pequena história:
Um estudante procurou um mestre; ele estava indo prestar seu exame final de mestrado, e perguntou ao mestre: “Como posso me manter em paz? Como posso me manter calmo? Ajude-me. Desejo paz. Ando tão inquieto, tão tenso”.
E o mestre respondeu: “Por que você deseja a paz”?
E o estudante respondeu: “desejo conseguir a melhor nota. O exame será em breve. Sempre obtive as melhores notas, mas este será o meu último exame e eu desejo obter a melhor nota. Mas se minha mente está tão tensa, como vou consegui-la? Assim, ajude-me a ficar em paz”.

Veja a contradição! E isso está acontecendo com todo mundo.

O mestre disse ao jovem: “Se não houvesse nenhum exame, se você não sentisse nenhum desejo de tirar a melhor nota, se não tivesse nenhuma ambição de ser o melhor da classe, haveria alguma inquietação em seu interior? Sua paz seria perturbada”?
E o discípulo respondeu: “Não, não haveria motivo. Eu estaria em paz. Mas agora, o exame está próximo e desejo obter a melhor nota. Assim, ajude-me a ficar em paz”.

Perceba... A ambição está destruindo a sua paz. Você permanece preso à sua ambição e ao mesmo tempo deseja a paz. A paz não pode estar a serviço da ambição; é impossível, contraditório. A ambição não pode ser pacífica. A ganância de ser bem sucedido não pode ser pacífica.
Se você desejar a paz deseje-a por si mesma. Não faça dela um meio para obter algo mais. Ela não pode se tornar um meio. Quando este sutra diz: Deseje fervorosamente a paz, ele se refere a paz como um fim e não como um meio.
Ninguém deseja os meios. Os fins é que são desejados, e por causa dos fins, os meios são desejados. Mas a paz jamais pode ser um meio. Na existência, tudo aquilo que é belo, verdadeiro, bom, profundo, não pode ser transformado num meio. É sempre o fim. Mas até mesmo Deus é desejado como um meio. Ninguém deseja Deus por si mesmo; desejamos Deus por algum outro propósito – ajudar a se curar, a permanecer vivo, a conseguir um bom emprego, etc... Então o desejo é falso.
É isso o que quero dizer quando afirmo que ninguém deseja verdadeiramente a paz, a não ser que a deseje por si mesma. Você pode alcançá-la facilmente se deseja-la como um fim. Deseje-a por si mesma e ela acontece, pois no verdadeiro desejo pela paz a ambição se extingue; no verdadeiro desejo pela paz, a ansiedade desaparece; no verdadeiro desejo pela paz a angústia desaparece. Se você continuar a ser ambicioso – desejando o sucesso, desejando ser isso ou aquilo, desejando ser alguém – então a paz não lhe acontecerá. Você continuará inquieto, dominado pela ansiedade, tenso. Continuará angustiado e nada do que fizer poderá lhe ser de alguma ajuda. Assim, esteja ciente disso. Se você quer a paz, deseje-a diretamente, como um fim. Nesse caso, o próprio desejo pela paz transformará você.
Na verdade a paz é natural. Não se trata de algo que precise ser desejado. Você, você mesmo a perturba. Ela já está presente. A paz é natural em você; ela é o seu próprio ser. Você a perturba devido à ambição, à ganância, à raiva, à violência. Ela já está presente, mas você a perturba.

Se você deseja a paz realmente, não a perturbe. E então, você começará a senti-la.
Para se alcançar a paz, é preciso remover tudo aquilo que a está obstruindo. Descubra por que você não está em paz. Por quê? Então, remova a causa. Se a ambição estiver perturbando a paz, livre-se da ambição e a paz acontecerá. A paz já está presente. Você não precisa deseja-la. Torne-se apenas consciente de como você a está perturbando, e não a perturbe; isso é tudo. E ela acontecerá.

É por isso que quando a paz é realmente desejada, ela acontece imediatamente. Não se precisa esperar nem mesmo um único instante.

Texto publicado em maio de 2011 e modificado em outubro de 2016

15 de out. de 2016

Deseje apenas o que está dentro de você



Deseje apenas o que está dentro de você.

Parece absurdo, paradoxal, ilógico: Deseje apenas o que está dentro de você. Perceba... Desejamos, basicamente, aquilo que não está em nós. Desejar significa querer algo que não está em nós. Se já estivesse em nós, qual seria então a necessidade de desejá-lo?
Nós nunca nos desejamos tal como somos. Sempre desejamos algo mais. Ninguém deseja a si mesmo; não há necessidade. Você já é isso; Não está faltando nada. Você deseja o que está faltando
O sutra diz: Deseje apenas o que está dentro de você – por muitas razões. Em primeiro lugar, se você desejar algo que não está dentro de você, poderá obtê-lo, mas ele nunca será seu. Não pode ser. Na verdade, você nunca poderá ser o senhor dele, será apenas um escravo. O possuidor é sempre possuído por suas posses. Quanto maior a quantidade de coisas possuídas, maior a escravidão criada.
Você é possuído por suas posses e deseja seu o senhor. A frustração se inicia porque toda a sua esperança foi frustrada. Você chega a um ponto no qual as coisas que desejava estão presentes, tudo o que você desejou aconteceu, mas você se tornou o escravo. Agora, o reino parece ter se tornado uma prisão, e tudo o que você possui, ou pensa possuir, não é realmente possuído, pois lhe pode ser tomado a qualquer momento. Mesmo se ninguém o tomar, a morte certamente o tomará.
Na terminologia religiosa, aquilo que pode ser tomado pela morte não lhe pertence. Então, qual o critério? A morte é o critério. Há apenas um critério para julgar se você realmente possui alguma coisa. Julgue levando em consideração a morte. Se a morte a tomar de você, você nunca a possuiu. Era apenas uma ilusão.
Existe algo que a morte não lhe pode tirar? Se não há nada, então a religião é inútil, sem sentido. Mas existe algo que a morte não pode tomar de você, e esse algo está oculto em seu interior – você já possui. É sua natureza mais essencial – seu Buda interior. Você é ela – ela é o seu próprio ser, sua própria base, sua existência. E esse é todo o ensinamento deste sutra: Deseje apenas o que está dentro de você. Deseje seu eu mais profundo, deseje o centro que você já possui, mas do qual se esqueceu completamente.
Mas por que o homem se esquece? Isso é uma necessidade. Para sobreviver, é necessário prestar atenção ao mundo exterior. Para sobreviver, existir, estar vivo, você precisa continuamente prestar atenção às coisas: comer, abrigar-se. O corpo necessita de atenção. Ele fica doente, está propenso a sofrer. O corpo está continuamente se esforçando para sobreviver, porque, para o corpo, existe a morte.
O corpo sempre se encontra em estado de emergência, porque a morte pode ocorrer a qualquer momento. Portanto toda a sua atenção se move para o exterior. Não sobra nenhuma energia para se mover pra dentro. Trata-se de uma necessidade de sobrevivência. Por esse motivo, continuamos a esquecer que existe dentro de nós um centro imortal, um centro eterno, um centro de bem-aventurança absoluta.
A dor atrai a atenção; o sofrimento atrai a atenção. O corpo é sentido apenas quando está doente. Se o seu corpo está absolutamente saudável, você não o sente. Você fica leve. Esse é o único critério da autêntica saúde: o corpo não é absolutamente sentido. Sempre que o corpo é sentido, significa que há alguma doença, algum distúrbio. Há tantos problemas oriundos do exterior que sua atenção está constantemente ocupada com ele. Por isso, você se esquece de que alguma coisa existe exatamente no centro do seu ser, alguma coisa imortal, divina, bem aventurada.

O sutra diz: deseje apenas o que está dentro de você.

...Pois dentro de você está a luz do mundo – a única que pode iluminar o Caminho. Se você é incapaz de percebê-la em seu interior, é inútil procurá-la em outra parte.

14 de out. de 2016

Entregue-se ao que é II


“Destrua o desejo de conforto, o desejo de felicidade. Destrua-o”.

Isso parece muito melancólico, triste, negativo. Não é. Quanto mais você desejar conforto pra você, mais desconforto sentirá. Quanto mais você desejar conforto, mais desconforto estará criando para si mesmo, porque o desconforto é proporcional ao desejo de conforto.
Quanto mais você procurar a felicidade, tanto mais sofrerá. O sofrimento é uma sombra. Quanto maior o desejo de felicidade, maior será a sua sombra. Procure felicidade e você nunca a obterá. Somente sentirá frustração. Por quê? Porque há apenas um modo de ser feliz, que é ser feliz aqui e agora. A felicidade não é o resultado final. É um modo de vida.
A felicidade não é o resultado final do desejo. É uma atitude, não um desejo. Você pode ser feliz aqui e agora se souber como ser feliz. A felicidade é uma arte. É um modo de vida.
Nesse exato momento, se você puder permanecer calado e consciente da vida ao seu redor e no seu interior, você será feliz. Os pássaros estão cantando, o vento está soprando. As árvores estão felizes, o céu está feliz, todas as coisas existentes estão felizes, exceto você. A existência é felicidade, uma celebração eterna, uma festividade. Olhe para a existência! Cada árvore está em festa, cada pássaro está em festa. Exceto o homem, tudo está em festa. Toda a existência é um festival, um constante e contínuo festival. Nenhuma tristeza, nenhuma morte, nenhuma miséria existe em lugar nenhum, a não ser na mente humana. Algo está errado com a mente humana, não com a existência.

Por que o homem é infeliz?
Nenhum animal é tão infeliz, nenhum pássaro é tão infeliz, nenhum peixe é tão infeliz quanto o homem. Por que o homem é tão infeliz? Porque o homem deseja a felicidade, mas os pássaros estão felizes nesse exato momento; as árvores estão felizes nesse exato momento. O homem deseja a felicidade; ele nunca está feliz no momento presente. Ele sempre deseja a felicidade e continua a perdê-la. A felicidade está aqui. Ela está acontecendo ao seu redor. Permita que ela entre em você.
Faça parte da existência. Não se mova para o futuro atrás da felicidade. A existência nunca se move para o futuro; apenas a mente se move.
É isso que chamo de meditação: estar aqui, sem se mover para o futuro. Não seja ambicioso, destrua todo o desejo pela vida, não deseje a felicidade, e então, você será feliz e ninguém poderá destruir a sua felicidade. Então você será imortal e a vida eterna terá acontecido. Na verdade, ela já aconteceu, mas você não está consciente da eternidade. Então você estará realizado. Sem ambição, você estará realizado.
Você é único. Toda experiência que é possível a alguém também é possível a você, mas acontecerá de um modo único. Aconteceu a Buda, aconteceu a Jesus, aconteceu a Zaratustra, e acontecerá a você também. Mas nunca acontece do mesmo modo. A essência da experiência do despertar será a mesma – a mesma bem aventurança, o mesmo silêncio, a mesma iluminação – mas na periferia tudo será diferente.
Portanto, não imite ninguém. Isso faz parte da ambição. Não imite Buda, não imite Jesus, não imite Krsna. Tente ser você mesmo. Ou melhor: seja você mesmo, pois tentar ainda é fútil. Quando você é você mesmo, está aberto a todas as responsabilidades. Quando você é você mesmo, toda a existência começa a ajudá-lo. Você não briga com ela.
Quando você não está em luta...  É isso o que significa confiar. Quando você não está em luta, a existência acontece a você. Se você está lutando contra a existência, está simplesmente se destruindo, destruindo suas possibilidades, sua energia de vida, sua existência. Não lute! Entregue-se à existência. Aceite a si mesmo, do modo que o Todo quer que você seja; não tente ser outra coisa, e o despertar da consciência pode acontecer a qualquer momento.

Pode acontecer neste exato momento; não é preciso esperar.

Texto publicado em maio de 2011 e modificado em outubro de 2016

2 de out. de 2016

Entregue-se ao que é I


Observe sua mente... Quantos desejos...

Osho diz:
Destrua totalmente a ambição, porque a menos que a ambição seja destruída, você permanecerá na miséria. A ambição é a fonte de todas as misérias. E o que é ambição? Ambição significa que você nunca está satisfeito com aquilo que você é, seja lá o que for. Isso é ambição. Então você permanecerá miserável, porque você não pode ser outra coisa. Você só pode ser você mesmo. Tudo o mais é fútil, prejudicial, perigoso. Você pode desperdiçar a sua vida inteira, toda a sua existência.
Aquilo que você é, seja o que for, é você. Aceite-o, não deseje ser diferente. A ausência da ambição é fundamental na transformação espiritual, pois quando você se aceita, muitas coisas começam a acontecer. Mas a primeira coisa... Se você se aceitar totalmente, a primeira coisa que lhe acontecerá será uma vida não tensa. Não haverá tensão. Você não deseja ser algo mais; não há nenhum lugar para ir. Então você pode estar aqui e agora. Não há comparação. Você é único. Não pensa mais em termos de outros.
Então, nesse estado, não há mais futuro. A ambição precisa de futuro, precisa de espaço para crescer. Ela não pode crescer aqui e agora; O momento presente é tão atômico, tão pequeno, que você não pode se mover nele. A ambição precisa do futuro.
Lembre-se: você não pode ser ambicioso no momento presente. É impossível. Não há espaço. Você pode estar nele, mas não pode desejar. O momento presente é suficientemente amplo para o Ser, mas não o é para o desejo. Para desejar você precisa do futuro, do tempo. E na verdade o tempo existe por causa do desejo. Para as árvores, não há tempo. Para os pássaros que cantam, não há tempo. Para as estrelas, para o sol, para a Terra, não há tempo. O tempo existe por causa do desejo humano. Se a humanidade não existisse nessa Terra, não haveria tempo, não haveria passado, nem futuro – você já pensou nisso?
Seu desejo cria o futuro. Sua memória cria o passado. Ambos são parte de sua mente. Não deseje, e o futuro desaparecerá. E quando não há futuro, como você pode ficar tenso? Como? Não há possibilidade de se ficar tenso se não há futuro. E se não há passado – se você sabe que o passado é apenas a memória, a poeira acumulada durante o caminho – como poderá haver qualquer ansiedade? Com o passado vem a ansiedade. Com o futuro – planos, imaginações, projeções – surge a tensão. Quando o passado desaparece e o futuro não está aberto, você está aqui, agora. Nenhuma ansiedade, nenhuma tensão, nenhuma angústia.

A não ambição significa aceitar-se tal como você é. Mas isso não quer dizer que não haja possibilidade de crescimento. Ao contrário. Quando você se aceita tal como é, a transformação se inicia. Você começa a crescer, mas em outra dimensão. Então a dimensão não está no futuro, mas no eterno.
Conheça bem esta distinção. Você pode se mover de dois modos. Se você se move no futuro, está se movendo na mente: num mundo de ficção, de sonho. Se você não se move no futuro, então uma dimensão diferente se abre para você a partir desse exato momento. Você está se movendo no eterno. O eterno oculta-se no momento. Se você puder estar aqui, agora mesmo, no momento presente, você penetrou o eterno. Mas se continua pensando no futuro e no passado, está vivendo no temporal. O temporal é o mundo, o eterno... O nirvana.

Conta-se que Buda repetia frequentemente que, se você puder permanecer no agora, não há necessidade de qualquer técnica de meditação. Isso é suficiente. Não é necessário mais nada. Mas como você poderá permanecer no agora se for ambicioso?
A mente ambiciosa não pode estar no agora. Pode estar em qualquer outra parte, mas não pode estar no agora. A mente ambiciosa sempre se move para longe do presente. Ela pensa no que está por vir, pensa no amanhã. Pensa numa vida após a morte; não se interessa pela vida que está aqui. Interessa-se por algo que poderia ser. Não se interessa pelo que é; está sempre interessada pelo que deveria ser, pelo que poderia ser. Esse interesse é não religioso. Uma mente religiosa, uma consciência religiosa, interessa-se pela existência tal como ela é.


Então, este primeiro sutra diz: destrua totalmente sua ambição para que você possa penetrar no eterno – aqui e agora!

Texto publicado em março de 2011 e modificado em outubro de 2016

1 de out. de 2016

O Buda do nariz preto


Um dos maiores problemas que todos aqueles que estão trilhando o caminho são obrigados a encarar é fazer uma clara distinção entre o amor e o apego. Eles parecem semelhantes, mas não são. O apego esconde a realidade que é o ódio com uma aparência de amor. Ele mata o amor. Nada pode ser mais venenoso do que o apego, do que a possessividade. Tente entender isso.
Isso tem acontecido a muitos e provavelmente está acontecendo a você – porque a mente confunde amor com apego. E aqueles que olham tudo pela aparência sempre são as vítimas: o apego é tomado como amor e, quando você toma o apego, a possessividade como amor, acaba sempre perdendo a realidade.
Possessividade, apego, é falso amor. O ódio é melhor porque, pelo menos, é verdadeiro, é um fato. O ódio pode tornar-se amor um dia, mas a possessividade nunca se torna amor. Você precisa simplesmente abandonar a possessividade para crescer no amor.
Por que o apego se parece com amor?
Amar significa estar pronto para mergulhar no outro. Não tem nenhum fim, é uma queda eterna dentro do outro. Nunca termina. Amar significa tornar o outro tão importante que você deixa de existir - é render-se incondicionalmente; Se houver qualquer condição, então você é o importante na relação, não o outro; você é o centro, não o outro. E, se você é o centro, então o outro é apenas um meio. Você utiliza o outro, explora, gratifica-se por meio do outro – mas você é a meta.
Todos os seus poemas, todas as suas canções sobre o amor são apenas substitutos para que você possa cantar sem penetrá-lo, para que você possa sentir que está amando sem amar. E o amor é uma necessidade tão profunda que você não pode viver sem ele: seja real ou falso. O substituto (o apego), pode ser falso, mas pelo menos, por algum tempo, lhe dá a sensação de que você está amando. Mas, cedo ou tarde, você compreende que ele é falso; então, não troca o falso amor pelo verdadeiro; troca de amante.
Quando você descobre que o amor é falso, estas são as duas possibilidades: mudar, abandonar o falso amor e torná-lo real; ou mudar de parceiro - você sempre sente que o outro o está decepcionando, não que você está se decepcionando.
Ninguém pode decepcioná-lo, exceto você mesmo... Mas você sente que o outro é o responsável: então muda de mulher, muda de marido, muda de Mestre, muda de Deus, muda de religião, muda de prece, vai a igreja em vez de ir à mesquita – perceba... Você muda o outro. Então, por algum tempo, você sente que está amando de novo, que está em prece. Mas, cedo ou tarde, o falso é novamente reconhecido – porque ele não pode satisfazer. Você pode enganar a si mesmo, mas por quanto tempo? Então, novamente você tem de mudar – o outro.
Quando você chega a compreender que o outro não é o problema, que o seu amor é falso – você fala muito nele, mas não faz nada para penetrá-lo – você fica assustado, com medo...
No amor, o outro se torna tão importante que você pode se dissolver; confia tanto no outro que não necessita ter a sua própria mente - pode coloca-la de lado. Você já não pensa mais em si mesmo. A confiança é tanta que já não há mais necessidade de pensar. O pensamento só é necessário quando existe a dúvida.
Quando a confiança existe, o ego não aparece. O amor é uma confiança, uma dissolução do ego. O outro se torna mais importante – sua própria vida, seu próprio ser.
Mas perceba... Em vez de amor, o ego lhe dá o apego, a possessividade. O amor diz: seja possuído; o ego diz: possua. O amor diz: dissolva-se no outro; e o ego diz: faça o outro render-se a você, force o outro a ser seu, não permita que o outro mova-se em liberdade; corte sua liberdade, transforme-o na sua sombra. O amor dá vida ao outro; o apego, a possessão, o mata, lhe tira a vida.
O homem tem medo da mulher por causa da experiência do amor.
Mediante o que chamam de amor, as pessoas se matam. Senão, por que este mundo tão feio? Há tantos amantes, todos o são: o marido diz que ama a esposa, a esposa diz que ama o marido; os pais amam os filhos, os filhos amam os pais, há amigos, há parentes – todos amam.
Todo mundo está amando... – tanto amor – e tanta feiura, tanta miséria, como pode? Em algum lugar, algo parece estar profundamente errado – e é na própria raiz. Isso não é amor!!! Se fosse amor, o medo desapareceria – quanto mais se ama menos se teme. Quando o amor realmente é total, não há medo. Mas na possessão o medo cresce cada vez mais porque quando você possui uma pessoa, sempre teme que ela o deixe – sempre há a dúvida. O marido sempre suspeita que a mulher ama outro. Eles se espionam e cortam a liberdade um do outro para que não haja possibilidades.
Porém, quando se corta a liberdade, a vida torna-se velha, morta. Tudo se torna chato, sem significado, entediante. E quanto mais isso ocorre, mais possessivo a pessoa fica; quando algo está escapando de suas mãos, você fica mais apegado, cria mais paredes, mais prisões...
E quanto mais prisões, menos vida existe. Então o amor diminui mais ainda e uma prisão maior é necessária; ciúmes contínuos e possessividade que o outro transforma-se apenas numa coisa. Quando o amor se transforma em frustração – e se transforma porque não é amor – então, pouco a pouco você começa a gostar de coisas. Olhe para as pessoas quando lustram (lavam) seus carros, o modo como olham pra eles – encantadas! Veja a luz romântica que vem às faces quando olham para seus carros - estão apaixonadas pelo carro.
Principalmente no Ocidente, onde o amor tem sido assassinado por completo, as pessoas amam coisas e animais: cães, gatos, casas, carros. É mais fácil amar uma coisa ou um animal; ele permanece fiel, não há perigo. Um marido é perigoso! Uma esposa é perigosa! A qualquer momento eles podem ir embora e nada pode ser feito. E quando isso ocorre todo seu ego fica despedaçado, você se sente ferido.
Essa é a miséria... Os amantes, os falsos amantes, na realidade são proprietários, não amantes.
O amor nunca pode ser possuído; é uma força vital, uma força infinita, e você tão insignificante. Ele não pode ser por sua própria natureza.
Somente em liberdade a vida e o amor existem.

Texto publicado em abril de 2011 e modificado em outubro de 2016

26 de set. de 2016

Por que você não se retira? I


Procure se manter silencioso, aberto, sem conflitos internos, sem lutas – simplesmente uma presença... Uma respiração suave... Presente no momento presente... Sem pensamentos, sem memórias, sem desejos...
A mente é a noite da alma. Mas você acredita nessa sua mente que não lhe dá nada a não ser promessas. Ela lhe dá promessas, ela é maravilhosa nisso – em dar promessas.
E a mente nem mesmo é sua! Ela esteve em muitas mãos, milhões de vezes. O que é novo na sua mente? Tudo nela é velho, usado. O que é novo na sua mente? O que ela tem de original? Tudo nela é emprestado. Quando um homem compra um carro usado, velho, antes fica pensando milhões de vezes se deve adquiri-lo ou não. Mas você nunca pensa sobre o fato de que a sua mente já foi usada por muitos – foi usada pelos seus pais, professores, sacerdotes, políticos. Você nunca pensa que todos os seus pensamentos são emprestados, velhos, tolos.
Entretanto, você continua acreditando na mente porque ela aprendeu um truque, o truque das promessas. Ela vai prometendo: “Eu lhe darei tudo. Você precisa de Deus? Eu lhe darei Deus, basta você esperar. Faça isso e aquilo. Esforce-se, espere, reze e O darei a você”. Mas sempre adia: “Amanhã acontecerá”. E o amanhã nunca vem – o amanhã não pode vir. Tudo o que vem é sempre hoje. E tudo o que a mente faz é transferir todas as coisas para amanhã. Ela lhe promete – no futuro. Se é o céu, se é Deus, se é a liberdade que você quer – não importa -, ela sempre lhe promete: “no futuro”.
A meditação nunca lhe promete nada. Ela simplesmente lhe dá o aqui e agora.
A mente sempre adia; ela diz: “Não tenha pressa, nada pode lhe ser dado agora”. É necessário tempo. O caminho é longo. Muito tem de ser feito e, a menos que você faça, como chegará? A mente sempre separa os meios dos fins.
Mas na realidade, não há nenhuma separação.  Cada passo é a meta, cada momento é o nirvana. O presente é tudo que existe. O futuro é o que há de mais ilusório: é uma criação da mente. Mas você acredita na mente, e ela é maravilhosa: ela nem mesmo o desencoraja!
Você não fica nem mesmo desencorajado sobre a mente. Você continua ouvindo-a. A mente é a escuridão, a parte escura de seu ser onde nenhuma luz entra. Ela é a noite.

Você não está suficientemente cansado da mente? Então retire-se! A mente já não fez o suficiente? A mente já não criou caos suficiente em você? Por que você está apegado a ela? Qual esperança, qual promessa o mantém preso a ela? Ela tem enganado continuamente. Ela diz: “Lá – naquela meta, naquela casa, naquela posse, naquele carro, naquela mulher, naqueles bens – tudo está lá” – sua felicidade está lá!. Você então, caminha pra lá e quando chega nada vem para as suas mãos, exceto frustração. Todas as expectativas o conduzem à frustração. Todos os desejos, no fim, transformam-se numa grande tristeza.

E essa mente continua prometendo, prometendo, sem cumprir nenhuma promessa.
Esse é o problema. Você gostaria de recusar a mente, ela nunca cumpriu nada, mas você tem medo. Você não pode viver sem promessas, não pode viver sem esperanças.
Com a esperança você pode tolerar o presente de algum modo – a esperança é uma anestesia. O presente é miserável, doloroso; a esperança é alcoólica, é uma droga que o torna inconsciente o bastante para que você seja capaz de tolerar o presente.
Esperança significa que aqui e agora há descontentamento. Então, procure viver sem esperanças, sem expectativas, viva cada momento com plenitude, atento, desperto e você terá se retirado da mente.
Para um homem que conhece o interior está na hora de sair do sono, de sair da sua mente, porque a mente é que é o sono! Com os velhos padrões, com a rotina do seu dia a dia, acordar não é necessário e você passa o dia dormindo acordado, realizando suas tarefas de forma mecânica. Na verdade a luz sempre esteve acesa no seu interior... Ela está aí, mas você continua olhando para fora, A Luz interior é a sua natureza, sua própria vida. Não há necessidade de alguém oferecer qualquer vela para o seu interior.
Assim lembre-se: todos aqueles que lhe oferecem alguma coisa para o seu caminho, que lhe oferecem velas, estão dando algo para o lado de fora.
As velas podem iluminar seu caminho no mundo, mas nunca o Buda interior.

Então, saia da mente e penetre o seu espaço interior...

23 de set. de 2016

Por que você não se retira? II


Para a maioria das pessoas o silêncio é um tédio.
Essas pessoas não suportam estar com elas mesmas. Quando não têm nada pra fazer ligam pra alguém, entram na internet, ligam a televisão, enfim... Fogem delas mesmas.
Elas permanecem na superfície, escolhem viver na superfície – e pensam que são livres. Acabam perdendo a oportunidade de se observarem, de conhecerem um pouquinho de si mesmas.

O mestre Zen Tokusan diz:
Retire-se! Se existe escuridão do lado de fora, algo pode ser feito. Se seu corpo está doente, você pode procurar um médico, mas se é o seu Ser que está doente, então nenhum médico poderá auxiliá-lo – você é que tem de fazer algo. O mestre pode apenas trazê-lo para este ponto em que apenas você pode fazer algo. Se alguém puder penetrar no seu interior, então esse lugar não é o seu interior, porque como pode alguém entrar no templo mais interior do seu Ser¿ Apenas você existe aí, na sua total solidão.
No seu mais íntimo ser, você é totalmente só – ninguém pode entrar aí. Nem mesmo um mestre iluminado pode entrar aí. No centro de um círculo pode haver apenas um ponto, não dois. Se existirem dois, ainda não é o centro.
Você está no ponto mais profundo do seu ser. O mestre pode auxiliá-lo a tornar-se alerta para esse fato. E, uma vez que você conheça o ponto mais profundo do seu ser, toda doença interior desaparecerá. Quando você aceitar sua total solidão, você será liberdade, não haverá nenhum apego – então, o amor poderá fluir!
Na realidade, apenas nesse momento o amor pode fluir, porque então o amor não é uma dependência, você não é dependente do outro. Quando você depende de outra pessoa, ao mesmo tempo se sente contra ela – porque tudo o que o torna dependente é seu inimigo, não pode ser seu amigo. Assim os amantes continuamente brigam, porque o amado é o inimigo. Quando você se torna dependente, não pode viver sem ele ou ela. Sua liberdade é destruída, e qualquer amor que destrói a liberdade mais cedo ou mais tarde transforma-se em ódio.
Apenas o amor que lhe dá liberdade nunca se transforma em ódio, é eterno. Assim, apenas um Jesus, um Buda, pode amar eternamente. Com eles, a mesma harmonia continua.
No verdadeiro pico, você está só. No mais íntimo centro do seu ser você é só. Quando você aceita isso, então o amor pode fluir como o Ganges. Então, nenhuma perturbação existe, e você pode amar sem qualquer condição. Então você pode amar sem tornar-se dependente, sem fazer da outra pessoa dependente de você. Assim, o amor pode ser uma liberdade.
A palavra “solidão” não é boa porque carrega em si uma tristeza – por sua causa, não por causa da palavra. Por causa das velhas associações, você sempre se sente triste quando está sozinho.
Lembre-se disto: quando você chegar ao âmago do seu centro, você não estará solitário, estará só! Essa solidão não é um vazio – é um preenchimento. Essa solidão não é vazia, é transbordante. Essa solidão não é um vácuo, é o Todo.
Tudo que o mestre pode fazer é torna-lo alerta para este fato; ele apenas o acorda para a verdade – o tesouro está escondido aí – e você nunca olhou para ele. Seu Ser já é iluminado!

Se você não pode olhar para dentro e ver a escuridão em que está vivendo, a escuridão da mente... Eu lhe darei uma vela para encontrar seu caminho.

Conta-se que Buda falou que os Budas só mostram o caminho – você é que tem de caminhar. Eles não podem ir com você, pois é impossível outra pessoa leva-lo ao seu centro. Os Budas apontam o caminho, mas você é que tem de caminhar.

Quando a mente é aberta você se ilumina, mas sua mente cria sua própria prisão. A mente é um fechamento, a mente é uma porta fechada. O ser é uma porta aberta – esta é a única diferença. Quando a mente se abre, você se ilumina – você é um ser. Quando a mente se fecha – você é apenas um passado, uma memória, não uma vida, uma força viva. Com a mente fechada, você pode olhar apenas para fora porque como olhará pra dentro? A mente está fechada, a porta está fechada. Com a mente aberta você pode olhar pra dentro.
E ao olhar pra dentro você é totalmente transformado. Se você tiver um único vislumbre do interior, nunca mais será o mesmo. Então, poderá caminhar, poderá olhar pra fora e andar no mundo – poderá ser um comerciante, poderá ser um funcionário, poderá ser um professor, um açougueiro – você pode ser tudo que era antes – mas a qualidade terá mudado.
Os mestres dizem que um home iluminado vive do mesmo modo que um homem comum – sem nenhuma diferença exterior. Come quando sente fome, dorme quando sente cansaço – no exterior, nenhuma diferença. Apenas a natureza do ser, a qualidade do ser é que muda – Se sua mente está aberta, você pode olhar pra fora, mas nesse estado permanece dentro. Você pode andar pelo mundo, mas o mundo não é parte do seu ser. Pode fazer qualquer coisa que seja necessária, mas nunca fica apegado.

O Zen diz que a mente comum é a mente iluminada, com apenas uma diferença: a mente está aberta, acordada. O sono se foi, a inconsciência se foi. Você está alerta.