3 de mar de 2012

Daruma, o gato e a concha II

Desde que a jornada da vida
É nada além de aflição e dor,
Por que deveríamos ser tão relutantes
De retornar ao céu de nosso lugar nativo?

Todo mundo sabe que há sofrimento. Fingimos que ele não existe, mas fingimentos são fingimentos.
Somente pessoas muito estúpidas podem fingir por muito tempo. Quanto mais inteligente você for, mais cedo virá o reconhecimento de que a vida é fugaz, transitória, de que ela é apenas uma bolha de sabão, e cheia de sofrimentos!
Mas então o que o mantém vivo? Se a vida for tal sofrimento, por que você segue em frente, o que o faz seguir em frente? A esperança.
A esperança existe como o horizonte esperando em frente. Ela diz: “Até o momento a vida foi sofrimento, porém não precisa ser assim pra sempre. Amanhã as coisas serão melhores; você está sofrendo com esta mulher, mas com outras mulheres as coisas serão melhores; você não está feliz com este emprego, mas com outro você será feliz; com este carro velho você está se sentindo miserável, mas existem carros bonitos, e você pode ter um melhor; com este tanto de dinheiro, é claro, como alguém pode ser feliz? Contudo, dinheiro pode ser ganho.
Essas esperanças ficam segurando você, de algum modo mantendo-o integrado. A esperança é a cola que o mantém junto; do contrário, você se despedaçaria.
E o que estou dizendo não é especulação. Investigue a sua vida e perceberá a verdade disso.
Você continua a pensar que todos os outros são felizes, exceto você – e esta também é a situação de todas as pessoas. Elas acham que você é feliz. Trata-se de uma decepção mútua; a grama sempre é mais verde no jardim do vizinho. E isso também ocorre com seu vizinho: ele acha que a grama é mais verde no seu quintal.
As pessoas fingem para os outros que são felizes. Elas precisam fazer isso, de outro modo seria impossível viver um único momento. No fundo, elas estão sofrendo e estão cheias de lágrimas, e na superfície mantém um sorriso.
Ao ver todo mundo sorrindo e tão feliz você pensa: “Só eu estou sofrendo. Se eu fizer um pouco mais de esforço, se eu trabalhar um pouco mais duro, se ficar um pouco mais agressivo em minhas ambições, conseguirei. Olhe! os outros conseguiram! Também posso conseguir, ainda tenho um resto de vida”.
Esse é todo o jogo que acontece.
Alguém perguntou a Georg Bernard Shaw: “O que é política?” E ele respondeu: “O rei do jogo da montanha. Uma criança fica em cima de uma pilha de lixo, e as outras crianças tentam tomar o seu lugar – isso é política”.
Um grande pensador, Ruskin, disse que na vida há apenas duas decepções: desejar uma coisa e não obtê-la e desejar uma coisa e obtê-la. Somente duas decepções. Se você não a obtiver, certamente ficará desapontado, mas, se a obtiver, então também você fica desapontado, pois tudo o que você estava esperando não é atingido através daquilo; trata-se de outra coisa. Aquela esperança era sua projeção, não a realidade.
É como ver uma pedra colorida brilhando ao sol da manhã e pensar: “É um diamante!”, e você corre. E não somente você, mas muitos correm; toda a cidade fica envolvida nisso, e, quanto mais as pessoas se envolvem, mais você pensa: “deve haver algo nisso. Quando tantas pessoas estão correndo naquela direção, deve haver alguma coisa ali, pois tantas pessoas não podem estar erradas”.
Lembre-se sempre: tantas pessoas não podem estar certas. É muito raro alguém estar certo, tantas pessoas não podem estar certas.
Sempre que você vir uma multidão indo a algum lugar, esqueça, abandone a idéia de ir. Tantas pessoas não podem estar certas. A maioria consiste em pessoas muito medíocres. Mas a pessoa começa a acreditar na multidão.
Mesmo que você crie um boato e muitas pessoas comecem a acreditar nele, no final você também acredita. Trata-se de uma decepção mútua.
Tantas pessoas correndo na rua em direção a uma pedra colorida numa manhã de sol, e todas estão pensando que se trata de um diamante muito valioso. Mas quando você chega...
...Se você não chegar, é claro que você sofrerá; você sempre carregará a ferida. Se você chegar, então verá apenas uma pedra colorida, e também você sofrerá.
O fracasso falha, o sucesso também falha. Perceber isso é deixar a esperança evaporar.
Não importa que você morra rico ou pobre, pecador ou santo, conhecido ou desconhecido, famoso... A morte vem e destrói tudo.
A morte é muito democrática, ela não acredita em hierarquias, não se importa se a pessoa era um peão ou um primeiro ministro. Ela simplesmente vem! E a poeira cai sobre a poeira e desaparece.
Não ajudará de modo algum você ser rico, famoso, um grande imperador, isso ou aquilo.
Se você puder perceber isso enquanto estiver vivo, então algo é possível – algo que está além da vida e da morte.

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