18 de set de 2011

Os pelos do seixo


Sem expectativas, num estado natural de observação, simplesmente escute esse verso:

Olhe as flores da cerejeira!
Suas cores e aromas caem com ela,
Vão-se para sempre, e desatenta
A primavera vem novamente.

Tente perceber...
A vida se repete desatentamente... E a menos que você se torne consciente, ela continuará a se repetir como uma roda – a roda da vida, a roda do tempo.
A vida se move como uma roda: o nascimento é seguido pela morte, a morte é seguida pelo nascimento; o amor é seguido pelo ódio, o ódio é seguido pelo amor; o sucesso é seguido pelo fracasso, o fracasso é seguido pelo sucesso. Perceba!
Se você puder observar por alguns dias, perceberá um padrão emergindo.
Num dia, numa agradável manhã, você está se sentindo muito bem e feliz e, num outro, está tão chateado, tão morto que pensa em fazer uma loucura.
Uma vez percebido o padrão, você pode sair dele.
Normalmente, as pessoas acham que, quando estão com raiva, alguém criou a raiva nelas. Isso está absolutamente errado!
Mesmo que você esteja sozinho e não haja ninguém, você estará com raiva naquele momento.
Isso tem algo a ver com sua roda, seu ritmo interno, e nada tem a ver com alguém de fora.
O exterior é apenas uma desculpa.
Essa é uma das grandes percepções que vêm às pessoas que ficam isoladas por alguns dias.
Essa é uma boa meditação, ficar isolado por algumas semanas (de férias, por exemplo), simplesmente ficar sozinho por algumas semanas.
Você ficará surpreso! A partir do nada... Num dia você está sentindo bem – ninguém está presente e ninguém fez nada para você; e noutro dia você está se sentindo muito mal. Num dia você está dançando, num outro está chorando.
E então você pode perceber que você cria seus próprios estados.
Quando isso é percebido, você pára de atirar as responsabilidades sobre os outros e a vida se torna diferente.
Do contrário estamos todos atirando nossas responsabilidades sobre os outros: “É por sua causa que estou com raiva ou triste”
Quando você sabe que não pode fazer alguém feliz e que ninguém pode fazê-lo feliz ou infeliz, todas as lutas desaparecem – todas as lutas são fúteis.
Então você sabe que tem uma roda interior que fica se movendo desatentamente
Assim, a única maneira de se livrar disso é ficar atento. A roda é um robô, é algo mecânico. Portanto, todas as meditações nada mais são do que desautomatização.
Todos os processos que se tornaram automáticos em você devem ser destruídos.
As meditações de Buda são para deixar você consciente das atividades da vida. Ao comer coma com total consciência; mastigue com consciência do que você está fazendo.
Ao caminhar, cada passo deve ser dado com completa consciência do que está acontecendo – não seja um robô!
Então, lentamente acontece em você uma nova integração, surge uma atentividade.
Essa atentividade pode tirá-lo da roda – nada mais.
E quantas vezes isso aconteceu a você? Você se apaixonou por uma pessoa e então houve grande frustração, sofrimento, miséria e angústia, e você pensou que nunca mais ia namorar ou casar novamente.
E, após alguns dias, novamente vem a primavera, novamente você está sentindo o amor florescer em você, novamente você está caindo no mesmo costume e na mesma rotina, novamente dizendo as mesmas coisas estúpidas para outra pessoa, e novamente você está num mundo de sonhos e se esqueceu completamente a velha experiência.
E isso acontecerá repetidamente! A primavera insiste em vir. Não pense que você é muito diferente de uma cerejeira.
Você está com raiva, e você sente o fogo, o veneno e a destrutividade disso, você está triste, você sofre e decide veementemente - nunca mais! Agora vou evitar isso.
E um dia, desatentamente, ela vem de novo. Uma pequena coisa a desencadeia e você está novamente em chamas, vermelho e fazendo coisas destrutivas.
Todo mundo se arrepende e as coisas continuam a acontecer da mesma forma que sempre aconteceram.
Estar atento significa no momento. Todo mundo é sábio quando o momento passou, lembre-se disso.
Os realmente sábios são aqueles que são sábios no momento.
Sua vida não é vivida por você, ela é vivida por um processo muito desatento. Você não a está realmente vivendo; você está sendo vivido por uma existência desatenta.
Você nasceu, é jovem e envelhece, você tem emoções e idéias, e todas elas estão acontecendo em você como as flores da cerejeira. E você fica repetindo a mesma coisa - todos os anos; você fica se movendo na roda.
Perceber isso, perceber isso totalmente, perceber isso como é, é o caminho para se tornar atento – o caminho para o despertar.

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