9 de dez de 2016

Vindo da estrada esburacada III


Observe sua respiração...
Inspiração e expiração... Compreenda a lei fundamental da natureza / mudança, mudança, mudança... Tudo muda tão rápido; é tudo tão momentâneo...

Da mesma forma, nossa vida humana é tão momentânea... Não faz sentido se perturbar com ela. Alguém o insultou e você faz grande estardalhaço a respeito disso – e isso é tão momentâneo! Não vai durar e tudo vai ser esquecido. Ou alguém se torna bem sucedido e enlouquece; ou alguém acumula muita riqueza e tira os pés do chão e passa a voar.

Antigamente havia uma bela tradição em Roma. Sempre que um conquistador romano voltava – ele havia conquistado novos países, fora um grande soldado e voltava com grandes sucessos e vitórias -, então, quando ele voltava, as massas, a multidão, o povão, todos gritavam em alegria. Ele era saudado como um deus. A tradição era que um serviçal caminhava atrás dele e continuamente o lembrava: “Não seja enganado pelas pessoas. Senhor, não seja enganado pelas pessoas! Não seja enganado pelos tolos; caso contrário, o senhor enlouquecerá”. Um serviçal, um escravo, tinha de repetir isso continuamente às costas do conquistador, de tal modo que ele pudesse se lembrar. Senão é muito fácil: quando o sucesso vem, a pessoa enlouquece.

Não seja enganado pelo sucesso. Ele é momentâneo, é apenas uma bolha, uma bolha de sabão. Não deixe que o sucesso lhe suba à cabeça.
Porque o sucesso sobe à cabeça – e o mesmo acontece com o fracasso; ele machuca. E tudo é momentâneo, este descanso é momentâneo. Pense nas infinidades... Antes do seu nascimento havia infinidade, o tempo sem começo o procedeu; e após a sua morte o tempo sem fim vai sucedê-lo. E entre essas duas infinidades o que você é? O que é a sua vida? Uma bolha de sabão, apenas um sonho de um momento.
Não permita que isso o afete. Se a pessoa puder permanecer consciente e não for afetada pelo sucesso ou pelo fracasso, pelo elogio ou pelo insulto, pelos inimigos ou pelos amigos, então ela está retornando à fonte original. A pessoa se torna uma testemunha.
Não fique perturbado com isso. Pondere e contemple a respeito disso – este é um grande segredo, um dos grandes segredos dos Budas. Simplesmente fique alerta, pois tudo é trivial, momentâneo e um sonho de verão. Ele está partindo, já está partindo, e você não pode se segurar nele. Não há necessidade de se apegar a ele e nem de empurrá-lo. Ele vai por si mesmo, bom ou mau, não importa o que ele seja, ele está partindo. Tudo está partindo; o rio está fluindo e você permanece sereno e desapegado, apenas uma testemunha. Isso é meditação.

O mestre diz:
Meu eu de há muito tempo,
Em natureza não existente;
Nenhum lugar para ir quando morto,
Nada absolutamente.

Novamente, tente contemplar cada palavra: Meu eu de há muito tempo... Antes do nascimento, éramos não existentes, e assim, de novo, seremos após a morte. Nenhum eu existia e nenhum eu existirá após a morte.
Buda insiste muito nesta visão do não-eu, pois todos os nossos desejos estão à volta do conceito do eu: eu sou. Mas, perceba... Se eu sou, então mil e um desejos surgirão... Se eu não sou, então como desejos podem surgir a partir do nada?
Esta é uma das maiores contribuições de Buda ao mundo.
Esta é uma das meditações mais fundamentais. Se isso pode se assentar em você, que “eu não sou”, então de repente o mundo desaparece. Saber que “eu não sou” é saber que não há necessidade de fazer coisa alguma, de ser coisa alguma, de possuir coisa alguma, de atingir coisa alguma. Quando não existe o eu a ambição é relevante.

Buda diz que a meditação básica é perceber que “eu não era e eu não serei”, então como posso estar no meio de dois nadas? Se eu não era antes e não serei novamente depois da morte, então como posso ser agora?

Meu eu de há muito tempo...

Antes do nascimento nós éramos não existentes, não eu, e deveremos ser assim novamente após a morte. Portanto, estamos nessa condição no momento presente, sem nada no mundo que possamos chamar de nosso. Isso atinge o âmago do problema.
Não se despoje de coisas – despoje-se do seu eu, e então as coisas são despojadas automaticamente.
Não importa o que você possui, mas se você possui, então você permanece na estrada esburacada – no mundo dos desejos.
Buda corta a raiz. Ele diz que não há ninguém para possuir. Perceba a beleza e a imensa implicação disso; não abandone as posses, abandone o possuidor.
E então você pode viver no mundo sem problemas, sem estresse, sem ansiedade, sem tensão...

Meu eu de há muito tempo
Em natureza não existente...

Buda trabalhou continuamente por seis anos em busca do eu. Você já ouviu o famoso ensinamento de todos os tempos: “Conheça a si mesmo”! Buda trabalhou duro; por seis anos ele tentou penetrar a realidade do eu, mas ele não pôde encontra-lo. Conheça a si mesmo, e no dia em que você se conhecer saberá que não existe eu.
E compreendendo isso a tensão se dissolve... A ansiedade se dissolve... E você, como ego, se dissolve...

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em dezembro de 2016

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