10 de nov de 2016

Vindo da estrada esburacada II


Começamos com um “doka”

Um descanso no caminho de volta
Da Estrada Esburacada
Para a Estrada Nunca-Esburacada;
Se chover, deixe que chova;
Se ventar, deixe que vente.

Cada palavra deve ser penetrada com simpatia... “A Estrada Esburacada” significa este mundo, o mundo dos desejos. Através dos desejos estamos perdendo nossa energia, desperdiçando nosso ser e desaparecendo pelo ralo.
Esse mundo é a Estrada Esburacada, e o ser humano simplesmente se desperdiça aqui. Nada é ganho a partir dela, nunca. Na verdade as pessoas vêm como imperadores e morrem como mendigos. Esta é uma estrada esburacada! Toda criança nasce como imperador, e logo o reino, a pureza e a inocência são perdidos. Cada criança é Adão no Jardim do Éden e cada uma precisa ser expulsa do jardim; e ela começa a penetrar no mundo dos desejos.
Existem dez mil desejos, os quais não podem ser realizados e satisfeitos. Eles trazem somente frustrações e mais frustrações, e cada desejo é uma nova armadilha de frustração. Você novamente tem esperança e acaba sendo pego, e cada desejo traz somente uma enorme frustração.
Porém, no momento em que ele vem, você começa a desejar de novo; você se move de um desejo a outro, e pode continuar se movendo por milhões de vidas. Em realidade, é assim que temos nos movido.

O mestre Zen Ikkyu chama isso de Estrada Esburacada. E a Estrada Nunca Esburacada, o mundo antes de nós termos nascido ou o mundo quando nós não existirmos mais.

No Zen, esta é uma das meditações mais básicas: procurar a face que tínhamos antes de nascermos ou procurar a face que teremos quando estivermos mortos. Apenas pensar sobre ela traz grandes realizações; apenas por meditar continuamente a respeito dela e a pessoa começa a sentir algo sem feição. Esta é a nossa face original; o estado de não feição. Você não tinha face, corpo, mente, nome ou forma antes de nascer – nenhum namarupa, nem nome nem forma. Você era, mas não estava identificado com nada.

O objetivo de todas as meditações é perceber isso novamente, dentre todo esse barulho da Estrada Esburacada, dentre todas essas pessoas que estão apenas correndo atrás de desejos, perseguindo um desejo e então um outro e um outro... Reconhecer e perceber a face original quando você não era um corpo nem uma mente, mas somente uma consciência pura, uma testemunha. Isto é chamado de Estrada Nunca Esburacada. Se você puder permanecer nesse estado, suas energias de vida não se dispersarão.
E o caminho de volta é retornar a esta fonte, a esta face original. Todas as religiões são o caminho de volta. Religião significa uma virada de 180 graus, uma meia volta, uma meia volta completa. Estamos correndo para longe da fonte original, estamos correndo de nós mesmos, e precisamos retornar, precisamos chegar à nossa fonte original, pois somente ali há paz, contentamento, bem aventurança e preenchimento.
A fonte é o objetivo – eles nunca estão separados. Somente a fonte pode ser o objetivo! Quando a pessoa volta para a sua fonte original, ela atinge tudo que a vida pode dar, tudo que a vida pretende dar.
A vida é perder o paraíso e a religião é recuperá-lo. Atirar-se no mundo dos desejos é Adão caindo da graça; retornar é Cristo. Eles são as mesmas pessoas! Adão e Cristo não são duas pessoas separadas, mas a mesma pessoa, somente suas direções mudaram. Adão está na Estrada Esburacada, afastando-se da fonte, indo cada vez mais longe da fonte, e Cristo está regressando, ele deu a volta.
A palavra cristã “conversão” significa regressar; Conversão não significa um Hindu se tornar cristão ou um muçulmano se tornar cristão. Conversão significa Adão se tornar cristo. Isto nada tem a ver com o cristianismo, mas algo com o próprio estado crístico. Porque ao se tornar cristão, você não se converteu; e nada mudou. Você era hindu e estava se atirando no mundo dos desejos, então você se torna cristão e se atira no mesmo mundo – mudou em você apenas o rótulo. Agora você não é mais chamado de hindu e sim de cristão.
Conversão significa uma virada de cento e oitenta graus – Adão regressando, o caminho de volta.
Os Budistas têm uma palavra ainda mais bonita para isso, paravritti – que significa exatamente uma virada de cento e oitenta graus. Menos que isso não serve. Se você errar, mesmo que por um único grau, você ainda estará se atirando no mundo dos desejos.
E o “descanso” significa nossa curta vida humana, tão curta que chuva ou vento e desgosto e paixão são de consequências e significados pequenos.

A vida pode ser encontrada somente no momento presente, mas nossas mentes raramente moram no momento presente. Ao invés disso, nós nos voltamos ao passado ou ansiamos pelo futuro.
Pensamos ser nós mesmos, mas, na verdade, quase nunca estamos em contato real conosco.
Nossas mentes estão muito ocupadas remoendo as memórias de ontem ou os sonhos acerca do amanhã. O único modo de se estar em contato com a vida é retornar ao momento presente.

E uma vez que você sabe como retornar para o presente, você se tornará desperto e, naquele instante, encontrará o seu verdadeiro ser.

Texto publicado em junho de 2011 e modificado em novembro de 2016

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