12 de jul de 2013

Uma mão acenando III


Sutra:
Todos os deuses esculpidos de madeira e marfim
Não podem dizer uma única palavra.
Eu sei, tenho clamado por eles.

E Kabir diz isso por sua própria experiência. Ele foi para todos esses lugares – para o templo e para a mesquita e para o rio santo e para os lugares sagrados. Viajou por todos os lugares, mas esteve com os olhos abertos, observando o que estava acontecendo, e nada estava acontecendo.
Ele diz isso por sua própria experiência. Ele não é um teórico, lembre-se sempre disso. Tudo o que diz, diz porque experienciou.

Ele diz:
Todos os deuses esculpidos de madeira e marfim não podem dizer uma única palavra.

E você continua a rezar para eles. E veja o absurdo disso. Você os comprou no mercado e depois começou a adorá-los. Eles são distrações, brinquedos com os quais passar o tempo, e você continua a se enganar. E pode ficar tão auto hipnotizado por seus enganos que sua vida inteira pode se escoar sem que você conheça um único vislumbre de verdade.
Destrua todos esses ídolos. Será doloroso, porque eles dão um certo consolo. Será doloroso porque você será deixado só sem nenhum deus para o qual chorar, para quem rezar. Você será deixado sozinho neste vasto vazio da existência. Mas esse é o primeiro passo para a realidade, para o verdadeiro Deus, para a religiosidade: dispa-se de todas as crenças.
Kabir rezou por muitos anos. Não apenas falando, chorando muito e com muita tristeza! Lamentava-se e chorava e rezava, e então um dia, de repente, percebeu o fato: A quem estou dirigindo isto¿ Não há ninguém, o templo está vazio! Deus nunca esteve ali. É um templo feito pelo homem, fabricado para manter algumas seguranças.
Deus nada mais é que um desejo infantil que se tem de um pai. É uma fixação no pai ou na mãe. É uma projeção.
A criança nasce; ela nasce na segurança, conforto, conveniência. A mãe toma conta, o pai toma conta, ela é protegida. Ela cresce dentro dessa proteção, nessa atmosfera atenciosa e amorosa; acostuma-se a isso. Começa a adquirir a ideia de que sempre será cuidada dessa maneira. Mas, cedo ou tarde, terá de se manter sobre os próprios pés, pois cedo ou tarde, a mãe morrerá, o pai morrerá e então irá surgir um problema: “Quem se preocupará”? “Quem me amará”? “Quem me protegerá”? E então ela cria seguranças imaginárias.
Por que você chama Deus de pai ou de mãe? É uma projeção, um desejo de preenchimento.
Kabir concordará totalmente com a psicologia moderna e sua abordagem. É uma fixação nos pais. Você não pode permanecer sozinho. Você continua a ser profundamente criança, ainda mais imaturo, ainda não é um indivíduo.
Para ser um indivíduo, a pessoa deve se libertar de todos os ídolos, todas as projeções. Para ser um indivíduo, a pessoa deve viver em insegurança, sem qualquer armadura. Ela deve viver vulnerável, perigosamente. Pelo fato de você ter medo, você cria um Deus. Seu Deus surgiu de seu medo.
E o Deus real nunca surge do medo. De onde surge o Deus real? O Deus real surge do amor, e o falso Deus surge do medo. Mas a diferença deve ser entendida. Ao rezar por medo, você está pedindo para algum Deus, em algum lugar do céu, lhe dar amor. Você é uma criança, precisa de um pai.
Uma criança quer amor, um adulto dá amor: essa é a diferença entre uma criança e um adulto. E, dos chamados adultos, nem todos são adultos. Crescer em idade não é crescimento real, enquanto crescer em consciência é crescimento real. Crescer não significa necessariamente amadurecer, pode ser apenas uma passagem de tempo. Você só envelhece, não amadurece. Você só envelhece, não fica mais sábio.
É natural. A criança não pode dar, ela só pode pegar. Quando você é adulto, quando começa a dar, começa a compartilhar amor... E esse é um dos maiores problemas que todo ser humano deve enfrentar. Você pode observar isso diariamente. Num relacionamento, ambos são imaturos, ambos pedem amor, e ninguém é adulto o suficiente para dá-lo, disso surge o problema. Dois mendigos que imploram um ao outro e ninguém está preparado para dar, ninguém tem qualquer coisa para dar – naturalmente, ambos se tornam muito zangados.
Apenas observe: Quando você ama uma pessoa, qual é o motivo? Você quer ser amado? então é infantil. Ou você quer compartilhar seu amor? Você tem tanto que gostaria de dá-lo? - então é maduro. O amor mendigo é imaturo, o amor maduro é um rei.
Assim, a partir do medo você cria um deus que é imaturo, tão imaturo quanto você. Por amor, você começa a ver Deus – religiosidade, melhor dizendo. O amor lhe dá olhos para ver que esta existência está cheia de divindade.
E a religiosidade não tem nome, nenhuma limitação. Onde quer que derrame seu amor você descobrirá isso. Derrame seu amor em uma árvore e a árvore se torna Deus. Derrame seu amor em uma mulher e a mulher é uma Deusa. Derrame seu amor em um homem e ele se torna Deus. Derrame seu amor em qualquer lugar, e de repente o amor torna isso possível, o amor cria o milagre, e Deus é descoberto. Derramar amor é a maneira de descobrir Deus.
Mas seus deuses não são deuses descobertos, eles são deuses inventados, deuses inventados por medo.


Um comentário:

  1. Um texto tão profundo e sem comentário...Será que eu serei a primeira ? Isso tocou minha alma, o Deus verdadeiro está presente quando derramamos amor, descobrimos Deus com AMOR e não com medo. O medo nos leva a buscar Deus mas só O encontramos quando o medo acaba e nos sentimos gratos e com gratidão podemos sentir e dar amor.Aí encontramos Deus seja até numa árvore.Obrigada,gostei do texto!

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