19 de abr de 2013

Os três amigos II



Como sempre, quem sabe não profere uma única palavra desnecessariamente. Vive com o essencial.
E esse sutra diz: havia três amigos discutindo sobre a vida...
Perceba... Apenas os amigos podem discutir, porque, nesse caso, a discussão não é um debate, é um diálogo.
E qual a diferença entre um debate e um diálogo? No debate você não está pronto para ouvir o outro; mesmo que esteja ouvindo, sua audição é falsa. Você não está ouvindo, você está simplesmente preparando o seu argumento. Você carrega certas teorias e está tentando provar que são verdadeiras; ou seja, o seu barco não está vazio.
Um buscador de verdade não traz teorias consigo. Ele está sempre aberto, vulnerável. Ele pode ouvir. Um hindu não pode ouvir, um muçulmano não pode ouvir. Como pode um hindu ouvir? Ele já sabe a verdade, não há necessidade de ouvir. Ele vai tentar fazer você escutá-lo. Sua mente já está tão cheia que nada pode penetrar. Um cristão também não pode ouvir, ele já sabe a verdade. Ele fechou suas portas para que novas brisas não o alcancem, ele já chegou, ele já atingiu o destino.
Todos aqueles que sentem que chegaram podem debater, mas não podem travar um diálogo, então surge um conflito, eles se opõe um ao outro. Numa discussão assim, você pode até silenciar o outro, mas o outro nunca é convertido.
Mas a vida não tem conclusão. A vida não tem um pensamento tolo que a defina. Ela continua indefinidamente; ela é sempre, eternamente, um caso em curso. Você pode até se agarrar à sua conclusão, mas a vida não vai esperar por você.
Três amigos estavam discutindo a vida...
Assim, no Oriente, tem sido uma tradição que, a menos que você encontre amizade, amor, reverência, confiança, nenhuma pergunta é possível. Se você for a um mestre e seu barco estiver cheio com suas ideias, não pode haver nenhum contato, nenhum diálogo. Primeiro você tem que estar vazio, para que você possa olhar sem tirar conclusões.
Um hindu pode ler a Bíblia, mas ele nunca entende. Um cristão pode ler o Gita, mas ele nunca penetra em seu íntimo, ele nunca atinge o reino interior.
Na verdade ele não pode ler os livros, é impossível, por causa das conclusões da mente. Ele já sabe que Jesus Cristo é o único filho de Deus. Como ele pode ouvir Krishna? Somente Cristo é verdade. Então Krishna é fatalmente visto como algo falso, no máximo, uma inverdade bonita, mas nunca a verdade.
Então, quando a mente conclui que Cristo é a única verdade, é impossível ouvir Krishna. Mesmo que Buda cruze o seu caminho, você não vai encontra-lo.
Perceba... O mundo inteiro está cheio de conclusões. Uma pessoa é cristã, outra é hindu, outra é jainista, outra budista – é por isso que falta verdade. Uma pessoa religiosa pode ser apenas um buscador sincero. Ele pergunta e permanece aberto, sem tirar nenhuma conclusão. Seu barco está vazio.
Três amigos discutem a vida...
Apenas amigos podem discutir porque então a discussão torna-se um diálogo. Quando você está debatendo, o outro é uma coisa a ser convertida, convencida; o outro não tem significado, é apenas um número...
Na amizade o outro é significativo, o outro é um fim em si mesmo; você não está tentando convertê-lo. Como você pode converter uma pessoa? Que loucura! Uma pessoa é tão grande e tão vasta que nenhuma teoria pode ser mais importante que uma pessoa.
Nenhuma Bíblia é mais importante que uma pessoa, nenhum Gita é mais importante que uma pessoa. Uma pessoa significa a própria vida. Assim, você pode amar uma pessoa, mas você nunca pode converter uma pessoa. Se você está tentando converter, você está tentando manipular. Então, a pessoa torna-se um meio e você está apenas explorando.

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