13 de fev de 2013

A coruja e a fênix IV



Hoje um sutra um pouco maior. Procure, então, prestar atenção ouvindo com amor e receptividade.

Essa fênix imortal
Ergue-se do mar do sul
E voa para o mar do norte,
Jamais pousando
A não ser em certas árvores sagradas.
Não toca nenhum alimento
A não ser a mais requintada
Fruta rara,
Bebendo apenas
Das mais cristalinas nascentes.

Uma vez uma coruja
Mastigando um rato morto
Já meio apodrecido,
Viu a Fênix voando,
Olhou para cima
E gritou com alarme,
Apertando o rato contra si
Com medo e espanto.

Você sempre lê Buda ou Jesus dizendo: “Pare de desejar e você será feliz”. Mas você não consegue deixar de desejar, você não consegue entender como pode ser feliz abandonando o desejo, porque você só provou do desejo até hoje. Ele pode ser venenoso, mas tem sido seu único alimento. Você tem bebido de fontes envenenadas e, não sabe que existem fontes límpidas, e não sabe que existem árvores com frutas raras – você olha apenas através do seu desejo, então não pode ver os frutos e as árvores.
Quando seus olhos estão cheios de desejo, eles veem apenas ratos mortos. Existem pessoas que não podem ver nada mais do que os objetos de sua luxúria.
Essa coruja pode se sentar no topo de uma árvore alta, mas ela está apenas em busca de ratos mortos. Sempre que aparece um rato morto na rua, a coruja fica agitada. Ela não vai ficar apenas agitada, mas não vai nem ver você atirar para ela um belo fruto. Ela não vai nem tomar conhecimento; a informação nunca vai alcança-la, porque os desejos funcionam como um filtro. O tempo todo, apenas o que os seus desejos permitem entra em você.
Seus desejos são como um vigia na porta do seu ser. Eles só permitem aquilo que os atrai.
Então, mude esse vigia, caso contrário você sempre viverá à base de ratos mortos. Você continuará a ser uma coruja, e isso é uma tristeza, porque lá no fundo a fênix está oculta e você está se comportando como uma coruja. É por isso que você nunca consegue se sentir à vontade, é por isso que nunca pode se sentir feliz. Você não pode sentir. Como pode uma fênix se sentir feliz com um rato morto.
Foi isso que você sentiu muitas vezes. Ao fazer amor com uma mulher ou um homem, você sentiu muitas vezes que isso não era para você. A fênix se afirma, mas a coruja é muito ruidosa. A fênix não pode ser ouvida, a voz é muito sutil, silenciosa, não agressiva.
Em momentos de paz e meditação, a fênix diz: “O que você está fazendo? Isso não é para você. O que você está comendo? Isso não é para você. O que você está bebendo? Isso não é para você”.
Mas a coruja é muito barulhenta e você acreditou na coruja durante tanto tempo que vai segui-la apenas por hábito. A trilha de terra batida está ali. Você não precisa fazer nada, Você simplesmente anda na trilha, e continua andando – os mesmos desejos, os mesmos anseios, as mesmas ambições, e você continua andando em círculos.
Chuang Tu diz: “Deixe a fênix interior se afirmar”. Ouça-a, é uma voz ainda muito baixa, pequenina. Você tem que se acalmar, você terá que colocar essa coruja para dormir, só então será capaz de ouvir.
Essa coruja é o ego, a mente; a fênix é a alma. Ela nunca envelhece, nunca morre. Pousa somente em árvores raras, sagradas, só come frutas raras, bebe apenas nas fontes mais cristalinas. Essas fontes existem, essas árvores sagradas também existem. Você tem estado ausente por causa da coruja.
Toda a meditação nada mais é do que um esforço para silenciar essa coruja, para que a voz mansa e delicada possa ser ouvida. Então você vai ver o que tem feito – mastigado rato morto.
Perceba... Se você, sua fênix interior, passar a viver a sua vida, a coruja, a sua mente, ficará a princípio apavorada. Sua mente vai criar todo tipo de obstáculo para a meditação.
Sua mente vai agarrar o rato morto – seus desejos, e vai gritar, com medo, como se alguém fosse tomar os alimentos de você.
No início isso vai acontecer – e você tem que estar alerta e consciente disso. Pouco a pouco a sua consciência vai ajudar
Sempre que alguém começa a meditar, a mente fica rebelde. Ela levanta todos os tipos de argumentos: “O que você está fazendo, por que está perdendo tempo? Aproveite melhor esse tempo! Muito pode ser feito com ele, muito pode ser conquistado. Aquele desejo tem esperado por tanto tempo e não há tempo, e você está perdendo tempo com meditação? Esqueça isso”! Aqueles que dizem que a meditação é possível estão enganando você.

Ouvi contar...
Um homem estava conversando com seu filhinho. A criança havia escrito uma carta, como parte da lição de casa, e foi mostra-la ao pai. Havia tantos erros de ortografia quanto palavras, talvez até mais. Assim, o pai disse: “Sua ortografia é horrível. Por que você não olha no dicionário? Quando ficar em dúvida, procure no dicionário”.
A criança disse: “Mas, pai, nunca fico em dúvida”.
Perceba... Isso é o que a sua mente faz. Ela diz para um Buda: “Mas, pai, nunca fico em dúvida”.
A mente nunca duvida de si mesmo, esse é o problema. Duvida de todo mundo, mas quando a mente começar a duvidar de si mesma estará começando a perder a sua existência.
Depois que você começa a duvidar da mente, mais cedo ou mais tarde cai no abismo da meditação.

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