18 de dez de 2012

Olhe para o passado, desidentificado



Meditação 22
Olhe para o seu passado, desidentificado


Deixe a atenção estar em algum lugar onde você esteja vendo algum acontecimento passado, e até mesmo sua forma, tendo perdido suas características atuais, é transformada.

Essa é uma técnica muito simples, muito básica. Lembre-se do seu passado – qualquer acontecimento. Sua infância, seus amores, a morte de seu pai ou mãe... Qualquer coisa. Olhe para isso, mas não se envolva nisso.
Por exemplo: Quando você estiver quase caindo no sono à noite, retroceda através das memórias do dia todo. Não comece pela manhã. Comece exatamente de onde você está, exatamente na cama – e, então, vá retrocedendo pouco a pouco, passo a passo, até a primeira experiência da manhã, quando você acordou. Retroceda, mas lembre-se de que você não está se envolvendo.
Outro exemplo: à tarde alguém o insultou. Então, veja a si mesmo, a sua forma, sendo insultado por alguém, mas permaneça apenas um observador. Não fique envolvido; não fique com raiva novamente. Se você fica com raiva novamente, então, você está identificado. Então você perdeu o ponto de meditação.
Quando você retrocede, você está desembaraçando a mente. De manhã você começa a embaraçar e a mente vai ficando confusa em muitas coisas, em muitos lugares. Inacabadas e incompletas, muitas coisas permanecerão na mente e não existe tempo para assentá-las no exato momento em que elas acontecem.
Assim à noite retroceda. E quando você estiver chegando de volta à manhã – quando você estava simplesmente na cama, a primeira coisa pela manhã -, você novamente terá a mesma mente fresca que você tinha pela manhã. E então, você pode adormecer como uma criança pequena.
Desembaraçando a mente, você é uma testemunha. Você está vendo coisas que aconteceram a você, mas, agora, elas não estão acontecendo a você. Agora, você é apenas um observador e elas estão acontecendo na tela da mente.
Fazendo essa técnica diariamente, de repente, um dia, você se tornará consciente durante o dia, em qualquer lugar, que você pode ser uma testemunha dos eventos que estão acontecendo exatamente agora. Se você puder ser uma testemunha mais tarde e olhar para trás, para alguém que o insultou, sem ficar com raiva quanto a isso, por que não exatamente agora, quanto ao que está acontecendo no momento?
Alguém o está insultando: qual é a dificuldade? Você pode se colocar de lado exatamente agora, e você pode ver que alguém o está insultando e ainda assim você é distinto de seu corpo, de sua mente, daquilo que é insultado. Você pode testemunhá-lo. Se você puder ser testemunha disso, você não ficará com raiva; então será impossível. A raiva só é possível quando você está identificado.

Essa técnica diz: Olhe para qualquer acontecimento do passado – sua “forma” estará presente.

O sutra diz sua forma, não você. Você nunca esteve presente. É sempre a sua forma que está envolvida; você nunca está envolvido. Quando você me insulta, você não insulta a mim. Você não pode me insultar, você pode insultar somente a forma. A forma que eu sou está presente exatamente aqui e agora, para você. Você pode insultar essa forma e eu posso me desapegar da forma.
É por isso que os hindus sempre estiveram insistindo em ser desapegado do nome e da forma. Você não é nem o seu nome, nem a sua forma. Você é a consciência que conhece a forma e o nome, e a consciência é diferente, totalmente diferente.
Mas é difícil. Assim, comece com o passado; então fica fácil; porque, agora, com o passado, não há urgência. Alguém o insultou há vinte anos. O homem pode ter morrido e tudo já está acabado. Mas uma vez que você possa se tornar consciente, não há nenhuma dificuldade em fazer o mesmo com o que está acontecendo exatamente aqui e agora.
Mas para começar aqui e agora, é difícil. O problema é tão urgente e está tão perto, que não existe espaço para se mover. É difícil criar espaço e se mover para longe do incidente. É por isso que o sutra diz para começar com o passado: olhe para a sua própria forma desapegado, permaneça distante, e seja transformado através disso.
Você será transformado através disso, porque trata-se de uma profunda limpeza, de um desembaraçamento. Então, você pode saber que seu corpo, sua mente, sua existência no tempo não são sua realidade básica. A realidade substancial é diferente. As coisas vêm e vão sobre ela, sem tocá-la ao menos. Você permanece inocente, intocado; você permanece virgem. A coisa toda passa, a vida toda passa: bom e mau, sucesso e fracasso, louvor e reprovação – tudo passa. Doença e saúde, juventude e velhice, nascimento e morte – tudo passa e você permanece intocado.
Mas como conhecer essa realidade intocada dentro de você? Limpe toda a consciência das profundezas do passado e seu verdadeiro ser será transformado através disso.
Então, tente essa técnica. Comece hoje à noite, tente e, então, faça- a pela manhã também. E quando você sentir que está afinado com a técnica, que você pode fazê-la, depois de uma semana tente com todo o seu passado. Tire um dia. Vá para um lugar solitário. Será bom se você jejuar – jejue e fique em silêncio. Deite-se em alguma praia solitária, ou sob alguma árvore e simplesmente mova-se para o seu passado, a partir desse ponto. Continue penetrando, penetrando e descubra a última coisa que você puder se lembrar.
Isso é uma experiência e o resultado é fenomenal, porque, então, você sabe que, através de muitas e muitas vidas, você tem vivido o mesmo absurdo que você está vivendo agora. O padrão é o mesmo, o formato é o mesmo, somente os detalhes diferem. Você amou outra pessoa, agora, você ama esta pessoa. Você acumulou dinheiro... As moedas eram de um tipo, agora, as moedas são diferentes. Mas todo o padrão é o mesmo; ele é repetitivo.
Uma vez que você possa ver por muitas e muitas vidas que você viveu o mesmo absurdo, o quanto tem sido estúpido todo esse círculo vicioso, de repente, você está acordado e toda a coisa se torna um sonho. Você é atirado para fora dele e, agora, você não quer repetir a mesma coisa no futuro.
O desejo para, porque desejo não é nada mais do que o passado sendo projetado no futuro. O desejo não é nada mais do que sua experiência passada que você quer repetir novamente – nada mais. E você não pode deixar o desejo a menos que se torne consciente de todo esse fenômeno. O passado está presente como uma grande barreira – ele o está empurrando para o futuro. Os desejos são criados pelo passado e projetados para o futuro.
Se você puder conhecer o passado como um sonho, todos os desejos se tornarão impotentes. Eles cairão, eles simplesmente murcharão – e o futuro desaparece.
Nesse desaparecimento do passado e do futuro, você é transformado.

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