11 de jun de 2011

Pensamentos Errantes


Sutra 03

Assim como o arqueiro apara e afia a flecha,
o mestre corrige seus pensamentos errantes.

Há uma famosa parábola tibetana:
Um homem serviu a um mestre durante muitos e muitos anos. O serviço não era puro: havia uma motivação nele. Ele queria um segredo do mestre – o segredo de como fazer milagres. Com esse desejo oculto, o homem estava servindo ao mestre dia após dia. Ele tinha medo de dizer qualquer coisa sobre o seu motivo, mas o mestre o estava observando continuamente.
Certo dia, o mestre lhe disse:
- É melhor que você, por favor, deixe a sua mente falar, porque eu estou continuamente vendo um motivo em todo o serviço que você me presta. Ele não é feito por amor; certamente, não é por amor. Eu não vejo nenhum amor no que você faz. E não vejo nenhuma humildade. É uma espécie de suborno. Assim, por favor, diga-me: o que você quer?
O homem estava esperando por aquela oportunidade. Ele disse:
- Eu quero o segredo de fazer milagres.
- Então, por que você perdeu tanto tempo? – respondeu o mestre. – Você poderia ter me dito no primeiro dia em que chegou. Você se torturou e me torturou também, porque eu não gosto de ter pessoas que têm motivos ao meu redor. Elas são feias de se ver. Elas basicamente são gananciosas, e a ganância as torna feias. O segredo é simples... Por que você não me pediu no primeiro dia? Este é o segredo...
Ele escreveu um pequeno mantra num pedaço de papel, apenas três linhas: “Buddham sharanam gachchhami. Sangham sharanam gachchhami, Dharmmam sharanam gachchhami”. Isso quer dizer: “Eu vou aos pés de Buda; eu vou aos pés da comunidade de Buda; eu vou aos pés de dhamma, da lei suprema”.
E o mestre disse ao homem:
- Leve este pequeno mantra com você, repita-o cinco vezes – apenas cinco vezes. É um processo simples. Basta lembrar-se de uma condição enquanto estiver repetindo: tome um banho, feche a porta, sente-se silenciosamente – e, enquanto estiver repetindo o mantra, não pense em macacos.
- Que absurdo é esse que você está dizendo? – disse o homem.
- Em primeiro lugar, por que eu pensaria em macacos? Jamais prestei atenção em macacos em toda a minha vida!
- Isso fica por sua conta, mas eu tenho de lhe falar sobre a condição. Foi assim que o mantra me foi transmitido, com essa condição. Se você nunca pensou em macacos, tanto melhor. Agora vá para casa e, por favor, não volte nunca mais. Você tem o segredo, sabe a condição. Aceite a condição e você terá poderes miraculosos; seja o que for que queira fazer, você é capaz. Você pode voar no céu, pode ler os pensamentos das pessoas, pode materializar coisas e assim por diante.
O homem correu para casa; ele até se esqueceu de agradecer ao mestre. É assim que a ganância funciona: ela não sabe o que é agradecimento, não sabe o que é gratidão. A ganância é absolutamente inconsciente da gratidão – ela nunca se deparou com ela. A ganância é um ladrão, e os ladrões não agradecem as pessoas.
O homem saiu correndo, mas ficou muito intrigado: mesmo no caminho para casa, os macacos começaram a aparecer em sua cabeça. Ele viu muitas espécies de macacos, pequenos e grandes, e de boca vermelha e de boca preta. E ele ficou muito intrigado, “o que está acontecendo?” Na verdade, ele não estava pensando em nada mais além de macacos. E eles estavam se tornando cada vez maiores e se amontoando todos ao redor.
Ele foi para cãs, tomou um banho. Mas os macacos não o deixavam. Então ele começou a suspeitar que eles não iriam deixá-lo enquanto ele estivesse entoando o mantra. Ele nem tinha entoado o mantra ainda, ele estava apenas se preparando. E, quando ele fechou as portas, a sala estava cheia de macacos – ela estava tão lotada que não havia nem espaço para ele mesmo! O homem fechou os olhos e lá estavam os macacos, ele abria os olhos e lá estavam os macacos. Ele não podia acreditar no que estava acontecendo. A noite toda ele tentou. Tomava banho e depois tentava e fracassava completamente.
De manhã, ele foi ao mestre, devolveu o mantra e disse:
- Guarde esse mantra com você. Isto está me levando a loucura! Não quero mais nenhum milagre. Mas, por favor, me ajude a me livrar desses macacos!
É tão impossível se livrar de um único pensamento! E se você quiser se livrar dele, a coisa se torna até mais difícil, porque, quando você quer se livrar de um pensamento é um momento muito decisivo – afinal, quem é o mestre, a mente ou você? A mente tentará de todo modo possível provar que ela é o mestre e não você.
O mestre tem sido um escravo durante séculos, e o escravo tem sido o mestre durante milhões de vidas. Agora, o escravo não consegue abrir mão de todos os seus privilégios e prioridades tão facilmente. Ele vai lhe oferecer grande resistência.
Experimente! Hoje, tome um banho, feche a porta e repita este mantra simples: Buddham sharanam gachchhami. Sangham sharanam gachchhami, Dharmmam sharanam gachchhami – e não deixe os macacos chegarem até você...
Você ri do pobre homem!? Você ficará surpreso: você é aquele homem.

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