19 de set de 2016

O dedo de Gutei I


As pessoas têm seus próprios valores e olham tudo com base neles. Um ser iluminado está numa dimensão totalmente diferente: vive sem valores, sem critérios, sem moralidade, vive simplesmente sem o ego. E todos os valores pertencem ao ego. Um ser iluminado simplesmente vive. Ele não manipula a sua vida; é como uma nuvem branca flutuando. Não tem para onde ir, nada para alcançar. Para ele, nada é bom ou mau. Não conhece nenhum Deus, nenhum demônio. Conhece apenas a beleza que a vida é em sua totalidade.

Ouvi dizer que, certa vez, um grande pintor pediu a um médico amigo que viesse ver uma de suas telas. O pintor achava que esta era a sua obra prima. Por isso naturalmente quis que seu amigo fosse vê-la. O médico observou a tela minuciosamente, olhou-a de um lado ao outro. Passaram-se dez minutos. O artista ficou um pouco apreensivo e perguntou: “O que há? O que você acha do quadro”? O médico respondeu: “parece que está com pneumonia dupla”.

Isso está acontecendo com todo mundo. Um médico tem suas próprias atitudes, seu modo de olhar as coisas. Ele olhou para a pintura à sua maneira. O médico diagnosticou o quadro. Ele não compreendeu, e uma bela pintura virou pneumonia.
É assim que a mente funciona: Quando você olha para algo, sua mente entra no meio modificando e você perde a oportunidade de ver a beleza do fenômeno.
Você sempre age a partir da periferia, você vive nela, na circunferência nunca no centro. Para você ela é o que existe de mais importante.
O corpo é apenas um meio. A circunferência tem que ser sacrificada. Deixe o corpo, mas não abandone o seu interior. É assim que toda austeridade nasce.
Se for necessário corte sua cabeça. Se isso auxiliar, se junto com a cabeça o ego cair... Abandone a cabeça. Não a carregue, ela mantém o ego. Por nada você está perdendo tudo.
Isso deve ser lembrado: quando se vive no centro, a perspectiva é totalmente diferente. Então ninguém morre ninguém pode morrer – a morte é impossível. Quando se vive na periferia, todos morrem. A morte é o ponto final para todos. Não há vida eterna.

Quando Krsna fala a Arjuna no Gita, é realmente o centro falando para a periferia. Arjuna vive na periferia, pensa a partir do corpo.
A vida é muito complexa – está em constante movimento -, e raramente se está perto da porta. Se um simples momento passar, a oportunidade estará perdida. E muitas vidas talvez sejam necessárias para você chegar novamente à porta.

Então, procure penetrar uma nova dimensão, sem valores, sem critérios, sem moralidades, sem ego. Simplesmente viva, não manipule sua vida. Sinta-se como uma nuvem branca, flutuando. Nenhum lugar para ir... Nada para alcançar. Nada é bom ou mau. Responda qualquer momento sem julgamentos. Nesse estado, você conhece apenas a beleza que é a vida na sua totalidade.

Isso é o que chamamos de Iluminação. É chegar a entender, perceber que você não é o corpo – É a luz interna. Não o lampião, mas a chama. Perceber que você não é o corpo nem a mente. A mente pertence ao corpo, não está além dele. É a parte do corpo mais sutil, mais refinada, mas ainda assim é parte do corpo.
Hoje em dia ficou difícil cruzar com um homem desses – Iluminado. Essa beleza desapareceu. Só cruzamos com céticos, com pessoas cheias de dúvidas que sempre dizem não. Elas são feias, mas estão por toda parte. Então, pouco a pouco, você também se enche de dúvidas. Desde o primeiro dia, desde a primeira vez em que sua mãe o amamentou você tem se alimentado de dúvidas. Todas as descobertas da ciência dependem da dúvida. É preciso ser cético, duvidar – só assim a ciência pode trabalhar.
A religião trabalha num ponto totalmente oposto. É preciso ser confiante, é preciso dizer um profundo sim. Só assim a sua rendição será possível... Só assim a sua entrega será possível.

Texto publicado em março de 2011 e modificado em setembro de 2016

A resposta do homem morto


Nesse momento, procure deixar a mente racional, controladora pra trás... Procure cessar os movimentos da mente. E, assim, volte ao seu centro.

Mente é raciocínio. E por meio do raciocínio, você não pode sair da mente. Isso é o que você tem feito por muitas vidas. Você sente que está se movendo porque a mudança está presente, mas continua seguindo num círculo – não consegue sair da periferia.
Somente no centro do ser a pessoa pode ser autêntica, verdadeira. Na superfície são todos imitadores. E as pessoas são grandes imitadoras. É mais fácil imitar do que ser autêntico porque a imitação está apenas na superfície.
Já a autenticidade necessita de você em sua totalidade. E isso é demais pra você. A imitação é muito fácil: toda a cultura, toda a sociedade baseia-se nela.
Todos estão lhe dizendo como se comportar, e tudo que lhes ensinam não é nada mais que imitação. As pessoas chamadas de religiosas, os padres, os teólogos, os monges – também estão lhe ensinando: seja como Jesus, seja como Buda, seja como Krishna! Ninguém nunca diz: Seja somente você mesmo! Ninguém! Ninguém lhe permite ser você mesmo, ninguém lhe dá nenhuma liberdade. Você pode estar nesse mundo, mas deve imitar alguém.

Todo mundo tornou-se irreal, tornou-se ator. Ninguém é verdadeiro. É muito difícil encontrar um homem real. Se você puder encontra-lo, não o deixe. Fique perto dele, sua realidade torna-se infecciosa. Sua proximidade já será uma transformação para você. Isso é o que chamamos Satsang: estar perto de um homem verdadeiro, de um homem real, de um homem autêntico. Isso é o que chamamos de “associações saudáveis” – falamos nisso na aula passada. Estar perto de pessoas que estão sinceramente, verdadeiramente comprometidas com a compreensão... com a compaixão, com o amor. Quando nos cercamos dessas pessoas, somos nutridos por sua presença, e as sementes de amor e compaixão que carregamos em nossos corpos e mentes são regadas.

A sociedade fez de você um ator, um imitador. Você não é real, é falso. Nunca lhe foi permitido ser você mesmo, e isso é a única coisa que você pode ser. Mas a imitação permanecerá apenas na superfície. No íntimo, você permanecerá você mesmo. A falsidade que você coloca sobre si mesmo não pode se tornar o seu ser. Como poderia? Ela pode, no máximo, ser uma máscara, um gesto superficial.
A sociedade quer apenas que você seja uma sombra, não um homem real porque um homem real é perigoso.
Apenas sombras podem ser subjugadas, podem ser obedientes, podem seguir. Um homem real não diz sempre sim.
Desde o nascimento, nós treinamos as crianças para serem falsas. Isso é o que chamamos de caráter. Se elas se tornam falsas, irreais, nós a apreciamos, as premiamos com medalhas. A falsidade é chamada de real, ideal. E se uma criança se rebela, tenta ser ela mesma, torna-se uma criança problema. Precisa ser psicanalisada para que possam consertá-la – pois algo está errado com ela. Mas não há nada de errado, ela está simplesmente se afirmando. Está dizendo: “Deixem-me ser eu mesma”!

Uma pequena estória:
Um menininho estava assistindo a uma cerimônia de casamento pela primeira vez. Uma pessoa, um visitante, lhe perguntou: “Com quem e quando você gostaria de casar”?
E o menino respondeu: “Nunca! Eu não quero me casar”.
O homem ficou surpreso e perguntou: “Por quê?”
E o menino disse: “Eu já vivi demais com gente casada e eles são tão falsos!” e seus pais estavam lá. – e ele continuou: “Não quero me casar porque quero ser eu mesmo”.

Perceba: a esposa não permite que o marido seja ele mesmo. O marido não permite que a esposa seja ela mesma. Ninguém permite a ninguém ser ele mesmo, porque isso é considerado perigoso.
Então reprima! E a sociedade é reprimida. Se a sociedade é triste é natural – pessoas falsas não podem ser felizes. Podem ser, quando muito, tristes e deprimidas. Freud disse que não existe remédio para a humanidade, que não há esperança de felicidade. Ele está certo. Do jeito que a humanidade está indo, se continuar assim, somente um estado de tristeza, de depressão, de desespero será possível. Apenas um suportar a si mesmo de algum modo, como uma carga – sem dança, sem energia borbulhando, sem vitalidade, sem cantos, sem flores, sem nada – somente um arrastar-se por aí.

As pessoas falsas só podem ser assim mesmo. Quando essas pessoas ficam muito cansadas, muito enjoadas dessa assim chamada sociedade, elas vão a um mestre em busca de verdade. Lá também tentam suas velhas técnicas. Mas quando você vem a um mestre, quando a necessidade de conhecer o que é a realidade surge em você, a imitação não é permitida. Se você imitar, estará carregando seu velho padrão, seu velho modo de vida, e esse modo de vida se tornará a barreira.

Texto publicado em março de 2011 e modificado em setembro de 2016